Sabrina Noivas - HusbAnd Wife... Again

Uma vez... Quando se casaram, Jamie e Stone achavam que seria para sempre. Um ano depois, o sim virou chega! Jamie queria criar razes, constituir famlia, mas Stone se viciara em trabalho. Embora no negassem o amor que um dia os unira, resolver as diferenas parecia impossvel...
Duas vezes? Agora, anos depois do rompimento, casualmente Stone se tornara chefe da ex-esposa. Trabalhar juntos despertava emoes e lembranas. Stone queria convenc-la a dar uma segunda chance ao relacionamento. Mas Jamie tinha a convico de que o chega jamais se transformaria em sim!

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Ed. Nova Cultural 1998. Publicao original: 1997
Gnero: Romance histrico contemporneo.  Estado da Obra: Corrigida
 
Receita de Stone FRANGO SEDUO
(serve duas pessoas)
dois peitos de frango, sem pele
sal, pimenta, p de chili
molho mexicano
um abacate maduro, sem casca, fatiado
queijo suo maturado, fatiado.

Acomodar os peitos de frango numa forma untada. Temperar com sal, pimenta e uma pitada de p de chili.
Sobre cada peito, derramar uma colher de sopa de molho mexicano.
Assar cerca de 45 minutos a 180aC. Cobrir o frango com fatias de abacate. Colocar mais molho e finalizar com o queijo fatiado. Levar de volta ao forno, por aproximadamente 10 minutos, para o queijo derreter.
Servir a quem se ama. Se o clima no esquentar, tentar um abrao... ou molho mais apimentado!








CAPITULO I

Corno, no temos ncora?  Harold 'Walker olhou para Jamie por sobre a cmera, espantado. Indicou o relgio de parede na penumbra do estdio.  Faltam dezenove minutos para entrarmos no ar! Onde est Todd?
Jamie, andando por entre os cabos que serpenteavam pelo cho, tentava no entrar em pnico.
	Voc sabe como ele . Sempre chega em cima da hora.
Harold bufou.
	Deve estar curtindo mais uma ressaca.  Olhou de novo para o relgio. Eram quase seis horas.
	Ele nunca se atrasou tanto. O que vai fazer se ele no aparecer?
Jamie tambm se perguntava a mesma coisa. Como produtora do telejornal matinal da KZZ, ela era responsvel por tudo o que se referia ao programa.
Devia ter providenciado um ncora substituto. Mas Todd se atrasava todo santo dia! E nunca perdera um programa. Daquela vez, porm, talvez no conseguisse chegar, e no havia como arranjar um substituto.
O consultor contratado pelo presidente da KZZ, para melhorar a audincia dos telejornais, chegara  cidade na noite anterior e comearia a trabalhar naquele dia.
Jamie sabia que a primeira coisa que ele faria ao acordar seria ligar a tev no canal trs. E queria causar uma boa primeira impresso.
Queria no, precisava. Queria convenc-lo a produzir uma srie semanal para estimular a adoo de crianas problemticas. At inclura na pauta daquela manh uma notcia sobre o assunto, esperando que, se conhecesse o problema, ele se sentisse mais inclinado a investir naquela ideia. Mas antes precisava pr no ar aquela edio.
O que Stone faria num caso daqueles? O ex-marido, famoso profissional de telejornalismo, sempre sabia como agir. Imaginar a soluo que ele daria a um problema geralmente ajudava a resolv-lo. nico inconveniente da tcnica: pensar em Stone trazia uma srie de outros problemas... todos emocionais.
Mas no era hora de pensar naquilo.
	Algum chegou cedo?  perguntou ao cameraman.  Algum reprter? Algum da meteorologia?
	Acabei de tomar caf l fora, no vi ningum. Somos s voc, eu, o diretor e o engenheiro.
Como sempre! quela hora da manh s eles estavam trabalhando. Harold pilotando a cmera, o diretor na sala de controle e o engenheiro para manter a emissora no ar.
Jamie sentia um frio no estmago.
Era preciso tomar uma deciso, depressa. S havia uma sada, mas fazia seu sangue gelar.
	... parece que eu mesma vou ter de apresentar o jornal...
Faltavam seis minutos para o jornal entrar no ar. O tempo exato para correr at a redao, pegar o blazer que a protegia do frio de maro, e voltar para o set.
	Oh, Deus, por favor... traga Todd aqui... agora!  implorava.
Ainda concentrada no pedido, abriu a porta do estdio. Todo iluminado e... vazio. Seus ps pareceram grudar no cho. Harold gesticulava freneticamente.
	Rpido, rpido! S faltam dois minutos e ainda preciso checar seu tom de voz!
Em dois minutos ela estaria frente a duzentos e cinquenta mil espectadores. Sentou-se  mesa do ncora. Tremendo, prendeu o microfone na lapela, tentando pensar em algo que no fosse o desespero. Pelo menos conhecia o texto, ela mesma redigira o script uma hora atrs.
	Tudo bem, agora teste o microfone  Harold pediu.
	Um, dois, trs...  Mesmo a seus ouvidos a voz soava hesitante. Pigarreou e tentou de novo.  Um, dois, trs...
	timo  Harold assentiu, satisfeito.
	Um minuto...  uma voz disse pelo intercomunicador.
Jamie deu um pulo. Da sala de controle, o diretor fazia o mesmo aviso todo dia, exatamente do mesmo jeito. Mas agora soava como uma sentena de morte.
	Tudo bem?  Harold perguntou.  Voc est meio plida.
Jamie no disse nada, s acenou. Por causa das luzes, ali estava quente. Mesmo assim ela sentia um calafrio na espinha.
	Tem gua sob a mesa  Harold informou, gentil.
Jamie sorriu agradecida, tomou um gole. Misteriosamente, a boca insistia em ficar to seca quanto antes. O corao batia forte, to alto que na certa seria captado pelo microfone.
	Trinta segundos...  o diretor gritou.
Jamie reuniu os papis sobre a mesa. Olhava fixamente a primeira notcia, tentando concentrar-se.
Os acordes da msica de abertura do telejornal encheram o estdio. Apavorada, Jamie olhou para o monitor  esquerda do set, que j mostrava a introduo.
	E agora...  a voz macia do locutor anunciava na gravao   hora do jornal matinal, com Todd Dodson.
Jamie tentava mover a cabea mas parecia petrificada. Estava paralisada. No conseguia nem respirar. Se no fizesse alguma coisa rpido, desmaiaria.
De repente, lembrou-se de uma tcnica de relaxamento que seu ex-marido comentara certa vez, e se agarrou a ela como se a vida dependesse daquilo: imagine o cara de cueca...
A nica pessoa por ali era Harold, que com certeza usava cueca samba-cano, talvez ligas para segurar as meias. Pensar naquele gorducho quase nu ajudou-a a relaxar. Concentrando-se naquela imagem cmica, Jamie at ensaiou um sorriso.
A luz vermelha da cmera piscou. Harold acenou, simulando com o brao a clssica bandeirada numa corrida de automveis.
Jamie olhou direto para a cmera, esforando-se para no piscar por causa da luz forte.
	Bom dia. Sou Jamie Erickson. Estou substituindo Todd Dodson.
Trinta minutos depois, quando a luz da cmera voltou a piscar, indicando o fim da transmisso, Jamie respirou aliviada e afundou na cadeira.
	Voc esteve tima, garota!  Harold a cumprimentou. 
tima? Esgotada era o termo mais apropriado. Envolvida com o contedo das notcias, Jamie ignorara completamente a elocuo. Na certa parecera uma amadora. Seus olhos lacrimejaram ao falar sobre as crianas  espera de adoo, a voz tremera ao narrar a situao de uma famlia sem-teto, e na certa deixara transparecer toda a sua indignao ao informar os desperdcios do governo. Conduta pouco apropriada para ncora de telejornal.
	Obrigada pela ajuda, Harold  Jamie gemeu.
Lembrar a imagem dele, s de cueca, ampliou seu sorriso.
Ele jamais saberia quanto ajudara.
	Obrigada, meninos  disse ao diretor e ao engenheiro, quando eles saram da sala de controle.
Harold cobriu a lente da cmera, olhou o relgio de novo.
	Hora do intervalo. Vamos comer alguma coisa?
Jamie sacudiu a caliea.
	No, obrigada. Estou tensa demais para comer. Vou ficar por aqui, tentar relaxar.  Correu o dedo pelo colarinho alto da blusa emprestada como se tivesse acabado uma maratona.  Na verdade, acho que vou testar o chuveiro do camarim.
Ao sair, Harold desligou os refletores e fechou a pesada porta sem nenhum rudo. De repente, o set estava escuro e silencioso outra vez. Jamie suspirou. Afinal podia reorganizar as ideias.
Ela conseguira. Podia no ter sido grande coisa, mas colocara o jornal no ar. Nem gaguejara. Ao levantar da cadeira, a tenso no estmago cedeu, a perplexidade ia virando satisfao.
Orgulhosa, Jamie saiu do estdio para o corredor. Lutara contra todos os seus demnios, e vencera. Que sensao maravilhosa!
No camarim, j mais animada, comeou a danar.
	Consegui, consegui!  gritava, erguendo os braos, vitoriosa.
Pendurou o blazer no cabide do espelho. Desabotoou a blusa rapidamente. Ao tirar a blusa, girou-a por sobre a cabea, correndo sem sair do lugar, como um jogador de futebol que acabava de fazer o gol da vitria. Meneou o corpo sensualmente enquanto desabotoava o suti. Comeou a cantar:
	Sou uma mulher...
	Uma mulher e tanto...  uma voz que no era a dela prosseguiu.
Jamie gelou. Havia mais algum no camarim... algum cuja voz, mscula, profunda, era curiosamente familiar.
Impossvel! Jamie olhou ao redor, o corao aos pulos. Viu um homem alto, ombros largos, de p, no canto menos iluminado do camarim. Nos lbios, um sorriso sexy e malicioso.
Era algum que ela conhecia bem, embora no visse havia uns trs anos. Algum que ainda frequentava seus sonhos. As vezes, a assombrava mesmo acordada.
Seu ex-marido.
	Stone! O que est fazendo aqui?
O sorriso do intruso se ampliou, mostrando uma covinha e acentuando as linhas ao redor dos olhos.
	Esperando por voc. O show foi uma surpresa inesperada.
Jamie s olhava, tentando acreditar que ele estava mesmo ali. Cruzou os braos sobre os seios, percebendo de repente que no vestia nada alm do suti desabotoado, que escorregava perigosamente.
Stone riu, mostrando os dentes brancos e uniformes, os olhos castanhos examinando-a com franca aprovao.
	Relaxe, Jamie, no h nada em voc que eu j no tenha visto.
Jamie corou sob aquele olhar indolente passeando sobre seu corpo. Cerrou os dentes, decidida a no deix-lo perceber quanto a perturbava.
	Tambm no h nada que v ver de novo.  Jamie virou-se abruptamente, pegou o casaco e cobriu os seios. Com a outra mo, tentava abotoar o suti.
	Calma, Jamie  ele repetiu, to prximo que a fazia estremecer. Abotoou o suti para ela.  No pretendia assustar voc.
Sentir aqueles dedos roando sua pele dava um arrepio na espinha. Jamie se afastou to logo ele terminou. Trs anos depois do divrcio, ele no tinha o direito de fazer seu corao acelerar, a pele queimar e os joelhos amolecerem daquele jeito.
Ela estava cansada, s isso. Estava exausta devido ao telejornal. E ele lhe dera um grande susto. Com certeza se sentiria melhor se estivesse mais apresentvel. Ainda comprimindo o blazer contra o peito, deu um jeito de enfiar os braos nas mangas. Com o casaco vestido ao contrrio, virou-se para ele.
Stone parecia estar se divertindo.
	O que faz aqui, afinal?
	Estou aqui como consultor  respondeu.  A emissora quer melhorar sua participao no mercado e, para isso, precisa aumentar a audincia.
	Voc no era diretor de telejornalismo numa emissora em Seattle!
	Foi apenas mais uma etapa na minha vida profissional. Voc sabe como  a indstria do telejornalismo...
Jamie sabia bem. As frequentes mudanas foram um dos grandes problemas de seu casamento.
	Ento agora trabalha para uma empresa de consultoria?
	Na verdade, minha prpria empresa. Mais que uma consultoria. Especializada na direo de telejornais.
	Quanto tempo pretende ficar aqui?
 Uns dois meses.
Meu Deus! Dois meses vendo Stone todo dia? Ele parecia ler seus pensamentos.
	Espero que no se importe de trabalhar comigo, Jamie.
	Por que me importaria?  ela respondeu, na defensiva.
	Na verdade, no vejo motivo.  Comeou a andar pelo camarim.  Foi surpresa saber que voc produzia um telejornal. Achava que produzia documentrios sobre assuntos infantis para a PBS.
Jamie sentou no banquinho do maquiador.
	A verba acabou.
	E a dedicou-se ao telejornalismo?
	Trabalho de produo  coisa rara por aqui.
	Pensou em procurar em outra cidade?
	No. Moro aqui, e acabei de comprar uma casa.
	Sozinha?  Stone ergueu as sobrancelhas, surpreso.
	. Por qu?
	Achei que talvez sua av morasse com voc.
	Ah...  Jamie fingia observar as unhas, desapontada.
Imaginara que a inteno da pergunta fosse descobrir seu atual estado civil. Tambm morria de vontade de saber o dele, mas no perguntaria. Para no mostrar interesse.
Stone ainda esperava uma resposta sobre a av.
	Vov e eu somos independentes demais para isso. Mas moro a poucos quarteires da casa dela.
	E como vai ela?
	Sempre animada. Viciada em novelas, entrevistas e shows humorsticos. Quando no est diante da tev, organiza excurses da terceira-idade para Madagscar.
	Fico contente em saber.  Stone sorriu.  Ela  tima. Sempre penso nela.
A av tambm sempre o admirara, mas Jamie nunca lhe contaria.
Stone afrouxou o n da gravata, desabotoou o colarinho da camisa branca e sorriu para ela. Jamie sentiu aquele velho e conhecido frio no estmago.
	Fiquei surpreso quando George Milton ligou a tev na sala dele e descobri que a ncora era voc.
	Voc viu o telejornal com o presidente?  perguntou, estupefata.
	Sim. Ele estava to surpreso quanto eu.
	Imagino...  Jamie mordeu o lbio inferior.  O ncora no veio. Eu devia ter chamado um substituto, mas achava que ele chegaria a tempo, e...
	Ambos achamos voc brilhante.
Jamie no acreditava no que acabava de ouvir.
	O qu?
	Brilhante  Stone repetiu.  Genial.
	Ah, pare com isso...
	Srio. Voc estava tima. Parecia to preocupada, interessada, envolvida...
	Ora, Stone. Um ncora deve ser isento e objetivo.
	Quem disse?
	Bem... todo mundo sabe disso...
	Os telefonemas pareciam sugerir que as pessoas esto cansadas de ouvir ms notcias dadas por ncoras sempre inexpressivamente iguais.
Jamie perguntou, incrdula:
	Algum ligou?
O telefone no parava de tocar. Comeou no primeiro intervalo e no parou mais. O sistema estava congestionado quando o jornal acabou.  Stone deu outro sorriso devastador.
 Voc tem talento, Jamie, muito. Podia ser ncora numa cidade grande. Talvez numa rede. Jamie enrijeceu.
	Nem todos concordam com sua definio de sucesso, Stone. Gosto da produo. E pretendo sair do jornalismo assim que surgir uma chance. Quero voltar  programao infantil.
	Sinto dizer, Jamie, mas sua carreira j comeou a mudar.
Jamie no se mexia.
	O que quer dizer?
	Recomendei voc para novo ncora do jornal da manh. Do meio-dia tambm.
Ele s podia estar brincando.
	Sem chance.
	Sem chance de ser verdade ou de voc fazer isso?  Stone ergueu as sobrancelhas.
	Ambas. Stone, voc sabe como me sinto falando em pblico.
	Claro que no!
Stone se aproximou por detrs. Segurou seus ombros. Jamie estremeceu.
	Voc est tensa  ele disse, pressionando-lhe os ombros delicadamente, massageando os msculos no exato ponto onde incomodava. Ele sempre soubera onde e como toc-la, como faz-la relaxar, derreter.
Jamie sabia que devia escapar, no mnimo pedir que parasse, mas parecia presa quele banquinho, incapaz de se mexer. O toque tinha efeito entorpecente. Os dedos dele subiram at o pescoo, fazendo-a pender a cabea para a frente. Que delcia! S um pouquinho no faria mal algum.
Fechou os olhos, inspirou aquela suave fragrncia. Reconheceu o perfume de seu creme de barbear. Oh, no! Aquilo despertava uma avalanche de recordaes... Stone ensaboando o rosto, toalha enrolada na cintura... dividir com ele o espelho do banheiro na pressa da manh...
De repente, Jamie abriu os olhos e viu que ele a estava observando pelo espelho em frente. Desviou o olhar, aturdida, desorientada. Respirou fundo, tentando parecer natural.
	Claro que estou tensa. Esse incidente me deixou nervosa. Tive de imaginar o cameraman de cueca.
O riso de Stone era clido, vigoroso, como as lembranas que evocava. Seus dedos prosseguiam a massagem deliciosa.
	O velho truque da cueca, hein? Que bom saber que tive alguma influncia na sua vida.
Sim, alguma. O casamento s durara um ano, mas as lembranas durariam a vida inteira.
Jamie sentia o ar frio nas costas atravs do blazer aberto. A mente parecia vagar, sob um bombardeio de recordaes: as mos de Stone em seus ombros como naquele momento, mas baixando as alas de um vestido amarelo. Aqueles lbios to macios... o corpo dele sobre o seu...
Uma onda de desejo, intensa, urgente, crescia dentro dela. Jamie se esquecera de como ele era capaz de excit-la rpida e intensamente.
De repente, percebeu que aqueles dedos caminharam para debaixo do blazer. Santo Deus, onde  que ela estava com a cabea? Ali sentada, sonhando acordada, sucumbindo ao feitio dele, enquanto ele ameaava mudar sua carreira!
Assustada, Jamie se afastou, arrastando o banquinho pelo cho ao levantar, produzindo um rudo estridente. Olhou para ele.
	Obrigada pela massagem. Mas sobre o trabalho... no, obrigada.
	Muita gente daria tudo por uma oportunidade dessas.
Jamie se endireitou rapidamente, quase deixando o blazer cair dos ombros.
	Eu no. Prefiro os bastidores. Alm do mais, a emissora j tem um ncora, Todd.
	Ele cometeu uma falta grave hoje. Se no for demitido, talvez v para a reportagem.
Jamie gelou. Stone falava srio. E, se j decidira, nada o faria mudar de ideia. Ela tinha de agir rpido se pretendia dissuadi-lo.
	Tenho algumas ideias para aumentar a audincia, que voc deveria analisar antes de tomar atitude to drstica.
	Voc vai ser a ncora, e ponto final!
	Voc no est entendendo... no quero assinar contrato algum.
	Voc j trabalha sob contrato.
	Bem...  verdade.
	Se  o contrato-padro da emissora, voc foi contratada para prestar servios profissionais.  a empresa que decide quais servios, se a quer como produtora, ncora de telejornal ou vigia. Voc tem de atender... a menos que prefira resolver o caso na Justia.
Stone no estava apenas recomendando-a para o cargo, estava coagindo-a a aceit-lo! Jamie ficou furiosa.
	Obrigada pelo conselho. Vamos ver se entendi... eles esperam que eu trabalhe como ncora e receba salrio de produtora?
	No, querem que voc assine novo contrato  Stone corrigiu. E mencionou um salrio que a ela pareceu astronmico.
Jamie cerrou os dentes. Certo, a remunerao era tima. E da? O caso no era dinheiro, ela no queria assumir um cargo que no tinha nada a ver com ela. Ao contrrio de Stone, no era movida a dinheiro.
	No quero!  Jamie bradou, furiosa.
	Bem, no sou eu que vou transform-la em ncora...  Stone respondeu, levantando as mos.
	Voc  o consultor. Esto seguindo seus conselhos. Foi ideia sua. Tem de fazer essa gente voltar atrs.
	No posso. Quando a vi no ar, tive certeza de que  o meio de fazer as coisas acontecerem. Tenho de lhes dizer a verdade.
Jamie sempre admirara a inabalvel tica de Stone, mas naquele momento sentia a raiva fluindo por todos os poros.
	Quem voc pensa que  para vir aqui e virar minha vida de cabea para baixo?
	Um consultor... pago para emitir uma opinio honesta.
	Mas  a minha vida que est pondo de pernas para o ar! Voc logo vai embora, e eu vou ficar. Como h trs anos.
Um msculo pulsava no maxilar de Stone.
	Ei, calma a, Jamie! A ideia do divrcio foi sua, lembra-se? Eu queria que fosse comigo para Seattle.
Jamie mantinha os punhos cerrados.
	Em apenas um ano mudei trs vezes por causa da sua carreira. Na ltima, tinha acabado de conseguir subveno para produzir meu primeiro documentrio. E voc nem me consultou antes de aceitar um emprego do outro lado do pas!
Stone agora tinha um olhar sombrio.
	Intil discutir o que passou, Jamie. ramos jovens e tolos. No h motivo para a gente no se entender agora.
Jamie respirou ruidosamente. Tolos? Por terem casado ou se separado? Mas no lhe perguntaria. Nem a si ousava perguntar.
Fosse como fosse, j no importava, pensou, furiosa. L estava de novo aquele n no peito, aquela sensao ambgua que ela conhecia to bem. Ergueu o queixo desafiadoramente.
	 que voc est agindo como antes... tomando decises que afetam a minha vida sem meu conhecimento ou permisso.
Stone saiu em direo  porta.
	Sinto muito se no gostou, Jamie. S fiz o que achei melhor para a emissora. Vim avis-la para no ser pega de surpresa quando o sr. Milton cham-la na sala dele.  Abriu a porta. Voltou-se, a mo segurando a maaneta.  E, como vamos trabalhar juntos nos prximos meses, espero que possamos agir como dois adultos civilizados.
Stone fechou a porta atrs de si, sentindo-se menos sensato do que fizera parecer. Na verdade, no se sentia nada civilizado. No via Jamie fazia trs anos, mas o tempo no reduzira em nada o impacto que ela sempre lhe causara. Ao v-la no vdeo, o corao batera descompassadamente. E quase sara pela boca ao v-la cruzar a porta do camarim danando, feliz.
Era a mesma Jamie de sempre. Os olhos azuis, os cabelos dourados, as curvas generosas. E a mesma personalidade intrigante, ambgua, adorvel. Em pblico era fria, calada, reservada. Mas sozinha mostrava um lado com-pletamente diferente. Podia ser selvagem, maluca, atrevida, ou tudo ao mesmo tempo. Era o lado que sempre aflorava quando faziam amor.
A lembrana despertava o desejo. Stone nunca conhecera nada mais doce que a desmedida paixo de Jamie. E lembrar daquilo naquele momento o fazia desej-la como nunca.
Tentou se concentrar em outros aspectos e censurou a si mesmo.
Ouvindo um baque surdo do outro lado da porta, perguntou-se o que ela estaria fazendo.
Adultos civilizados!  Era a voz dela, furiosa.  Ele vai ver o que  um adulto civilizado!
Stone riu. Sabia que no devia, mas no resistiu. Abriu a porta.
Jamie ainda olhava a porta, fazendo uma careta. O blazer no cho dizia que o barulho fora causado pelos botes ao encontro da porta. Outra vez ela estava nua da cintura para cima, exceto pelo minsculo suti de renda sobre os seios fartos.
	Peguei voc!  Stone exclamou.
Jamie desmanchou a careta. Envergonhada, correu para apanhar o casaco. Stone riu de novo. Parou. Observando descaradamente aqueles seios, no resistiu e acrescentou:
	Jamie, no  s seu temperamento que continua quente.
Stone escapou bem na hora em que Jamie atirava o blazer nele, desejando de todo o corao que fosse um tijolo.
Sim, era a mesma Jamie de sempre. E o corao dele, bem como todo seu corpo, reagiam a ela como sempre reagiram.
Rapidamente, Stone atravessou o hall rumo  redao. Se tivesse juzo ficaria longe dela, fsica e emocionalmente. Jamie o magoara muito, ele no precisava de mais uma dose.
Havia muitas mulheres que adorariam estar com ele, admirariam sua ambio e no o acusariam de cometer um crime hediondo se trabalhasse at tarde.
Por que ento se sentia atrado pela nica mulher que o rejeitara, que lhe dissera com todas as letras que no o queria mais, que simplesmente o riscara de sua vida?
Stone balanou a cabea, desanimado. Por que aceitara aquele emprego de segunda classe numa emissora de quinta? Au-topunio? Abrira mo de clientes mais interessantes para aceitar o contrato. A si mesmo, dizia ser pelo desafio de tornar competitiva uma emissora da zona rural. Mas aquilo era s um pretexto.
No. Aceitara o emprego porque soubera que Jamie trabalhava l. No pudera resistir  ideia de voltar a v-la, sabia disso. S no sabia por qu.
Talvez achasse que assim pudesse tir-la da cabea, convencer-se de que estava mesmo tudo acabado, e enfim seguir vivendo a prpria vida. Talvez achasse que a Jamie de carne e osso fosse diferente daquela que assombrava sua existncia, que roubara seu amor e s vezes o fazia acordar no meio da noite, agitado, excitado, louco de desejo.
Ou talvez a razo nem fosse to profunda. Talvez ele fosse mesmo um perdedor, incapaz de admitir que perdera.
Bem, fosse qual fosse a razo, ele agora estava l. Tentando descobrir um jeito de tirar Jamie de sua vida. De uma vez por todas.

CAPITULO II

	Oi, Lulu.  Jamie entrou na casa de Flossie, fechou a porta e se abaixou, acariciando as orelhas da grande gata rajada.
A julgar pelo som da tev e o cheiro gostoso que pairava no ar, a av estava cozinhando enquanto via seu programa de entrevistas predileto.
Jamie levantou e tirou o casaco, achando que no devia ter aceitado aquele convite para jantar. No tinha apetite, nem mesmo para o famoso frango  caadora da av. Ainda sentia um n no estmago devido ao encontro com Stone e  longa tarde que passara negociando seu contrato.
Como Stone dissera, o presidente da emissora insistira em fazer dela o novo ncora. Quisesse ou no, ela estaria no ar nos prximos dois meses. Seu1 nico consolo era ter conseguido estabelecer algumas condies. Findo o perodo de transio, se ainda discordasse ser ncora do telejornal, poderia voltar ao antigo cargo. Tambm conseguira da emissora o compromisso de deix-la produzir a srie semanal para ajudar as crianas carentes a achar um lar.
A negociao fora difcil, principalmente porque tivera Stone como adversrio.
Verdade que ele a ajudara a obter as duas concesses, mas era o mnimo que devia fazer, j que a culpa era toda dele. Como ousava se intrometer em sua vida daquele jeito, transformando sua carreira num verdadeiro caos?
Mais que a carreira, ele abalara seu estado de esprito, Jamie pensou, pendurando o casaco no cabide do hall. Para ele, no entanto, o reencontro parecia no ter feito nenhuma diferena.
Jamie seguiu Lulu at a cozinha, onde Flossie rasgava folhas de alface numa saladeira de madeira enquanto, por sobre os culos de aro de metal, assistia  televiso. Ao ver a neta, a senhora de cabelos grisalhos parou, ajeitou os culos no nariz, sorriu.
	Ora, como vai a nova estrela da tev?  Enxugou as mos no avental, desligou o televisor, foi correndo abra-la, um abrao to forte que Jamie se surpreendeu.  Estou to orgulhosa!
Depois do jornal, ligara para Jamie, convidando-a para jantar, emocionada por t-la visto no vdeo. No conseguia entender por que a neta no via o novo cargo como uma bno. Parecia at gostar de saber que Stone voltara  cidade.
	No vai ficar orgulhosa se eu comear a gaguejar no ar, vov.
Flossie afagou-lhe o rosto.
	Ora, menina, voc no gagueja h anos. Isso j passou. Talvez esta seja uma tima oportunidade para se convencer disso.
"Quanta solidariedade", Jamie pensou. Mas j devia saber o que esperar da av, uma otimista contumaz. Sorriu carinhosamente.
	Voc  pior que presidente de f-clube.
	Mas voc tem mesmo muito talento.  A av abraou Jamie de novo antes de solt-la.  Nesse ponto, todas as minhas amigas concordam. No imagina quanto elogiaram voc!
Jamie pegou um pedao de cenoura da salada, sorrindo apesar de no estar gostando da conversa. Provavelmente Flossie passara o dia inteiro ao telefone com as amigas.
	Agnes pediu para todas as amigas ligarem para a emissora.
Jamie parou, segurando uma tira de pimento verde no ar.
	Ligar para a emissora?
	Ih, escapou...  a av disse, cobrindo a boca com a mo.
Jamie encostou no balco, abraou a si mesma, ombros tensos.
	Por qu, vov? Por que Agnes ligou para a emissora?
A av se virou, fingindo cuidar de uma panela no fogo.
	Bem, tenho alguma experincia, eu era responsvel pela publicidade do Clube Literrio. Quando vi voc no jornal hoje cedo, bem... achei que podia dar uma mozinha.
Jamie atravessou a cozinha e segurou as mos da av.
	Vov, do que est falando? O que foi que voc fez?
	Eu... s dei um jeitinho de algumas amigas ligarem para a emissora... dizendo que tinham gostado de voc.
	Voc no podia ter feito uma coisa dessas!  Jamie protestou.
	Por qu? S dissemos que gostamos de voc, que foi bom ver seu rosto bonito na tela e que gostaramos que ficasse no programa.
	Oh, vov...  Jamie gemeu, deixando cair os braos.
	Foi antes de falar com voc, querida.  Flossie franziu as sobrancelhas, preocupada.  Eu no sabia que voc no queria aparecer na tela. Voc estava to bem que achei que podia dar um empurrozinho na sua carreira.
Jamie cruzou a cozinha, passos largos, pegou o telefone, estendeu  av, ordenando:
	Ligue para a emissora e conte tudo para Stone.
Mas Flossie j voltara ao fogo e prestava ateno exagerada em suas panelas.
	No posso fazer isso, querida.
	Por qu?
	Ele no est l.  Sempre que sua av usava aquele tom inocente, era porque aprontara alguma.
	E como sabe?  Jamie perguntou, desconfiada.
	Est vindo para c. Depois de falar com voc e saber que ele estava na cidade, liguei para ele. Convidei-o para jantar.
Jamie bateu o telefone com toda fora.
	Mas, vov... por que fez isso?
	E por que no? Achei que ele gostaria de comida caseira.
	Por que no?!  Jamie estava indignada.  Vou dizer por que no. Primeiro, porque ele  meu ex-marido e no tenho interesse em encontr-lo socialmente! Segundo, porque est me forando a fazer algo que odeio e fao mal, sem dar a mnima para o que eu penso! Terceiro, porque est arruinando minha carreira! Ningum nesta cidade vai me levar a srio como produtora depois que minha curta e ridcula carreira de ncora tiver terminado.
	Nenhum dos trs  motivo para ele no comer uma boa comida caseira.  Flossie seguia mexendo o molho.
Jamie estreitou o olhar.
	J sei o que est maquinando, vov, mas no vai dar certo. Ele agora tem mulher e filho.
	No tem. Eu perguntei.
De repente, Jamie sentiu os joelhos trmulos. Apoiou-se no balco. No peito, uma sbita e inexplicvel sensao de alvio.
Mas que bobagem! O estado civil de Stone no fazia diferena. Ela nunca alimentara a iluso de voltarem a viver juntos.
Jamie se aprumou.
	Pode desistir de brincar de cupido, vov.  Cupido?  A av arregalou os olhos inocentes.  S estou querendo ser gentil. E depois, Stone tambm mostrou interesse em saber se voc estava envolvida com algum.
Jamie sentiu um n no estmago no exato momento em que bateram  porta.
Flossie voltou a cuidar do fogo, como se de repente ele exigisse ateno imediata.
	Ele chegou. Pode abrir a porta, querida?
Jamie marchou para a porta. Abriu-a num tranco. Stone estava l, encostado no batente. Trazia uma garrafa de vinho. Vestia uma jaqueta do mesmo tom caf dos olhos. Transbordava sensualidade.
	No acredito que voc tenha tido a coragem de vir aqui.
	Ora, que recepo calorosa...  Stone sorriu.  Sua av no lhe disse que me convidou?
	Disse a voc que convidou a mim?
	No, mas eu no tinha dvida.
Jamie recuou.
	E mesmo assim voc aceitou?
	Gosto muito dela para recusar um convite. Alm disso, vamos trabalhar juntos, Jamie. Portanto,  melhor a gente ir se acostumando a estar sempre perto.
Stone sorriu maliciosamente ao entrar. Esbarrou nela de passagem. Mesmo irritada, Jamie sentiu uma onda de calor quele contato fugaz. Reao meramente biolgica, dizia a si mesma. Afinal, sexo entre eles sempre fora algo... quente. Seu corpo no tinha conscincia, nem bom senso. S memria.
	Oi, Lulu! Quanto tempo...  Stone se abaixou e brincou com a gata, que se esfregava em suas pernas ronronando alto.   bom saber que algum aqui est feliz em me ver.
Levantou, foi para a cozinha, sentindo-se to  vontade como trs anos antes.
Jamie viu Stone cumprimentar Flossie, levantando-a no ar, num grande abrao. Ento a ttica era essa, pensou maldosamente... desequilibrar as mulheres. Ao conhec-lo, ela se sentira mesmo um tanto... desequilibrada.
Mas agora Jamie tinha os ps muito firmes no solo.
	Vov tem uma coisa para lhe contar, Stone  disse, to logo ele ps a av no cho, dirigindo a Flossie um olhar sugestivo.
	Depois, Jamie. Antes precisamos servir uma bebida s visitas. Por que no abre o vinho que ele trouxe?
	Stone no  visita, ...  Jamie parou. O que ia dizer? Da famlia? J no era mais. Indesejado? No devia ser to rude.
Voltando-se, abriu uma gaveta ruidosamente.
	J frequentou esta casa por tempo suficiente para dispensar tratamento especial.  Fechou a gaveta e abriu outra.
 Onde est o saca-rolha, vov?
	Eu pego.  Stone se aproximou, pegou o saca-rolha no fundo da gaveta, soprou a poeira do cabo.  Se me lembro bem, Flossie, voc s serve vinho em ocasies especiais. E parece que elas no tm sido muito frequentes por aqui.
	No  bom beber sem um motivo para comemorar  a av respondeu.
Stone lavou o saca-rolha na pia. Em seguida abriu a garrafa.
	Precisamos fazer um brinde  a av disse to logo ele serviu o vinho.  Stone, voc sempre foi bom nisso.
	Aos velhos amigos e aos novos desafios!  Stone ergueu a taa, sorriu. Primeiro para a av, depois para Jamie.
	Novos desafios no me agradam nem um pouco  Jamie sibilou.
	Ento brinde s  primeira parte, a dos velhos amigos.  Stone ergueu a taa, levou-a aos lbios.
Jamie ficou meio aborrecida. Eles foram mais que amigos, foram marido e mulher, unidos pelo casamento, to prximos quanto duas pessoas podem ser. Como ele podia ter esquecido?
A av observava-a atentamente. Para no se trair, Jamie bebeu um pouco.
Velhos amigos, claro! Jamie pousou a taa com tal fora que algumas gotas respingaram na frmica branca do balco. Stone pegou o pano de prato. Jamie, uma toalha de papel. Aproximaram as mos da mancha. Jamie observava, ambos indecisos entre limpar a sujeira ou abrir caminho, um esperando que o outro se movesse primeiro.
Isso a fez lembrar o fim do casamento.
Jamie se afastou, deixou Stone cuidar da mancha.
	Tudo bem, vov. Conte a Stone o que fez.
A av se voltou para Stone, que levava o pano de prato  pia.
	Vi Jamie na tev de manh. Ela estava tima. Fiquei orgulhosa.
	Vamos direto ao assunto, vov.
Ignorando o aparte, Flossie sorriu para Stone.
	Achei que ela estava to bem que liguei para as minhas amigas pedindo que ligassem para a emissora.
	 mesmo?  Stone sorriu.
	Sinto muito, Stone, voc foi enganado.
Flossie confirmou, baixando o olhar.
Stone recostou-se no balco, parecendo se divertir.
	Quantas amigas suas ligaram para a emissora, Flossie?
	Sei l. Contando com o Clube de Senhoras, da Agnes, talvez umas vinte  a av respondeu, pousando a colher de pau e enxugando as mos no avental.  S queria ajudar Jamie.
	Compreendo... mas isso no muda nada.  Stone ainda sorria.
	Se no fossem essas ligaes, vocs no me manteriam no ar  Jamie interferiu.
Stone cruzou a cozinha, pegou a taa de vinho.
	Nem todas as ligaes foram de amigas de sua av.
	Como pode ter tanta certeza?
	Tenho alguns indcios.  Stone se virou para Flossie.  Qual  a... h... faixa de idade das suas amigas?
	Bem...  A av seguia mexendo o molho.  Todas tm mais ou menos a minha. Mas no se pergunta a idade de uma mulher, Stone!  Apontou-lhe a colher de pau.
Stone se aproximou. Beijou-lhe a testa.
Eu nem pensaria em fazer isso, vov. Mas, seja qual for a sua, fica muito bem em voc.
Stone se voltou para Jamie.
	Quanto  sua pergunta, atendi pessoalmente dezenas de ligaes, muitas de pessoas jovens.
Jamie tinha a palma das mos molhadas de suor.
	Impossvel saber a idade por telefone! Muitas... senhoras idosas podem parecer jovens ao telefone!
	Talvez  Stone bebericava  vinho, observando-a por sobre a taa , mas muitas eram voz de homem.  Seus olhos brilhavam. Continuava se divertindo.
Jamie estava boquiaberta. Ao perceber, fechou a boca.
	Alm disso  ele prosseguiu , foram mais de cem chamadas.
Cem chamadas? Stone nunca mentira, mas o nmero era absurdo.
	Voc est brincando.
	Jamie Lee Erickson, tenha modos!  Flossie ralhou.
	Se no acredita, confirme na redao.  Stone deu de ombros.
Claro que ela faria aquilo. Mas seria intil, sabia. Stone no faria tal sugesto se fosse mentira.
	Talvez as amigas da vov tenham ligado vrias vezes... ou pedido para outras pessoas ligarem.
	Oh, elas no fariam tal coisa!  a av interveio.  No so to espertas... como eu.  Olhou para Stone, rindo.  Como foi que no pensei nisso?
Flossie desertara para o lado inimigo. Escancaradamente.
Jamie bufou, ansiosa pelo fim daquele jantar, louca para voltar  paz e ao sossego da prpria casa, onde ningum tentaria manipul-la, nem teria de aturar a presena de Stone. Virou-se bruscamente. Pegou a salada.
	Vou ajud-la a servir a mesa, vov.
	Estava delicioso, Flossie  Stone bebeu o caf, olhando de relance para Jamie, que mal tocara na comida e estivera quieta o tempo todo, indcio de que estava perturbada.
Outro indcio era a torta de chocolate quase intacta. Jamie adorava chocolate, nunca deixava no prato sequer uma migalha de qualquer sobremesa.
 Obrigada, Stone. Consegui a receita do molho no programa Cozinha Rpida, no canal doze...
Stone fingia interesse na conversa fiada de Flossie com a mesma polidez que mantivera durante todo o jantar. Mas fora difcil despregar o olhar de Jamie para ouvir a tagarelice da velhinha, sobre novelas e outros programas da tev.
Embora Jamie no disfarasse o desprazer que sentia a seu lado, Stone no podia deixar de se sentir atrado, como no dia em que se conheceram.
Jamie, vinte e dois anos, recm-formada da faculdade, era produtora-assistente do show do palhao Boffo. Stone era di-retor de telejornalismo numa emissora em Tulsa, e se apaixonara de imediato. Era a mulher mais inteligente, divertida, afetuosa, e sexy, que j conhecera.
As diferentes origens de ambos no pareceram importantes na poca. Importava mais estar com ela. Quando casaram, ele decidiu trabalhar muito, construir uma carreira slida, para que ela pudesse ter tudo o que quisesse.
E por isso ela o deixara.
Fora bobagem acreditar que o amor duraria para sempre. Com toda a sua experincia na negociao de contratos, deveria saber que os de casamento so mais fceis de rescindir que os comerciais. Como de fato acontecera. Afinal, por que acreditara que um caipira do subrbio saberia fazer feliz uma mulher como Jamie?
Olhou-a de soslaio, tentando descobrir o que havia mudado nela. O nariz ligeiramente arrebitado, os lbios carnudos, os cabelos loiros e sedosos... tudo como antes. A diferena estava nos olhos, grandes, emoldurados por clios longos e escuros, daquele incrvel tom azul-escuro... Seu olhar agora encerrava certa frieza, certa cautela.
Ao v-la no vdeo pela manh seu pulso acelerara de tal maneira que quase se ouvia o sangue correndo nas veias. Como fora difcil ficar ali sentado, portar-se adequadamente na reunio com os diretores da emissora. L estava ele, um consultor altamente qualificado para salvar a emissora da runa... que s queria correr escada abaixo, interromper o jornal, e beijar a esposa at que ela...
Opa... ex-esposa. Engraado como lembrar isso doa, e como ele ainda pensava nela como esposa, mesmo depois de tanto tempo.
Stone precisava achar um jeito de faz-la cooperar, ou seria difcil trabalharem juntos. Ela estava perturbada por causa de sua recomendao profissional, ou a raiva tinha natureza pessoal? Era preciso descobrir.
Stone afastou a cadeira, saiu da mesa.
	Por que no vai para a sala descansar um pouco, Flossie? Eu e Jamie lavamos a loua.
	Obrigada, Stone.  A av sorriu, e piscou.  Acho que vou mesmo. Est na hora do meu programa de suspense preferido.
Stone tambm sorriu, divertido. A estratgia da velhinha para deix-los sozinhos era transparente demais. Jamie tambm achava, a julgar pela zanga estampada no rosto.
Stone puxou a cadeira para Flossie levantar. Ia estender a cortesia a Jamie, mas ela levantou to bruscamente que quase acertou o p dele. E comeou a tirar a mesa, amontoando a baixela de prata por cima da porcelana da av.
	Deixe que eu levo, Jamie.  Stone quis tirar a pilha de loua de suas mos.  Ou no vai sobrar nenhum prato para lavar.
Jamie fitou-o com um brilho irnico no olhar.
	Minha vontade  jogar tudo em cima de voc.
	Sinto muito se est brava, Jamie. Melhor no levar isso lado pessoal.  Stone forou um sorriso, tentando ser amistoso.
	E como esperava que eu agisse?  Entregou-lhe os pratos, pegou a travessa de macarro, foi direto para a cozinha.
Stone a seguiu.
	Minha recomendao de hoje foi estritamente profissional. No teve nada a ver com a gente.
	Voc espera que eu acredite?
 E voc? Acha que a recomendei para ncora s para tortur-la?
	Mais ou menos  Jamie deixou a travessa sobre o balco com a fora habitual. Voltou-se para ele.
Stone estava logo atrs. Instintivamente, imobilizou-a contra o balco, uma mo de cada lado. Seus quadris tocaram o corpo dela. E sentiu o desejo crescer. Primitivo. Urgente. Selvagem.
 Se quisesse tortur-la, Jamie, usaria meios mais... interessantes.
Jamie ficou olhando-o. As pupilas cresceram, escureceram.
Quando ela entreabriu os lbios, umedecendo-os com a ponta da lngua, Stone chegou mais perto, ansioso por beijar aquela boca, louco para sentir de novo aquele corpo junto ao seu. O corpo que conhecia to bem, que se encaixava to facilmente no seu. De repente, tudo o que sucedera desde a separao parecia no ter a menor importncia.
Jamie parecia um pssaro assustado. Seus seios subiam e desciam. Stone olhava aquele rostinho angelical, aquelas plpebras semicerradas, incapaz de se conter, embora soubesse que depois se arrependeria do que estava a ponto de fazer.
Roou os lbios nos dela. J esquecera como aquela boca era doce, macia. Aprisionou o lbio inferior entre os seus. Jamie gemeu baixinho. O gemido, to familiar, o enlouquecia. Trouxe Jamie mais perto, invadiu sua boca. Sentia o corpo tomado pelo desejo, e por uma emoo mais profunda, mais perigosa, que no ousava definir.
No, no e no! Ele estava em terreno perigoso, afundando em areia movedia. Se no parasse agora, fatalmente submergiria.
Stone recuou, surpreso com o mpeto do prprio recuo. Olhou para Jamie, os olhos ainda fechados, a boca ansiosa e tentadora, e voltou para a sala de jantar. Um copo de gua ficara na mesa. Bebeu tudo. Na verdade, precisava de algo mais forte.
Deus do Cu, o que fizera? Fora ali aparar arestas, tentar uma forma produtiva de trabalharem juntos, e agira como um troglodita. Esquecera sua responsabilidade para com a emissora, todas as normas do bom relacionamento profissional. Esquecera tudo, exceto que a desejava.
Pior, esquecera que eram divorciados, que ela o abandonara, no o queria mais.
Stone praguejou. Pensou em ir embora. Intil, voltaria a v-la no dia seguinte. E no queria um confronto na redao. Alm disso, lavar a loua fora ideia dele, e ele sempre cumpria seus compromissos. Voltou  cozinha.
Jamie estava de p, de frente para a pia, olhar perdido na escurido alm da janela.
Stone enfiou as mos nos bolsos da cala.
	Jamie, precisamos conversar.
Jamie abriu a torneira, enxaguou um prato. Evitava olhar para ele. Como podia ter sucumbido to facilmente? Como podia t-lo beijado? Como podia desej-lo daquela forma insana? Estava tonta, confusa. Para no deixar transparecer, resolveu atacar.
	No, Stone, eu preciso falar, e voc precisa ouvir.  Fechou a torneira, procurou o pano de prato.  Voc  o consultor da emissora e pode me fazer de boba no trabalho... mas no pode fazer isso fora daquela redao. No vou tolerar.
	O nico bobo aqui sou eu.
Jamie procurou, mas no viu ironia. Stone falava srio.
	Sinto muito, Jamie.
Ele parecia mesmo arrependido, olhar solene. E saber que ele se arrependia de t-la beijado no a fazia se sentir melhor.
Stone pigarreou, correu os dedos pelos cabelos densos e escuros.
	No sei o que houve. Talvez uma espcie de... flashback.
	Como pesadelo de quem esteve na guerra? Oh, muito lisonjeiro.
	Nunca houve nada errado no tocante  parte fsica do nosso relacionamento, Jamie.
Era verdade. Se tivesse havido, as coisas agora seriam bem mais fceis. Sempre fora pura magia. O menor estmulo... um toque, uma palavra, um olhar... bastava para incendi-los como um fsforo incendeia material inflamvel. s vezes bastava pensar. Ela costumava dizer que eles eram sexualmente telepticos.
Jamie pegou uma travessa, colocou na lava-loua. Pegou a esponja para limpar uma panela.
	O importante na frase  o verbo... houve, no passado.
	No vou esquecer  Stone disse, cerrando os punhos nos bolsos.   difcil se livrar de velhos hbitos.
Ento era assim que ele a via? Velho hbito era ainda mais irritante do que velhos amigos e flashback.
	Vamos esquecer o incidente, Stone.  Esguichou detergente na panela, sabendo que seria mais fcil esquecer o prprio nome do que aquele beijo e seu efeito devastador.
 Vou acabar de tirar a mesa.  Stone voltou  sala de jantar.
Jamie concentrou-se em lavar a panela. Fosse como fosse, tinha de achar um meio de rescindir aquele contrato, sair do ar. Precisava dar um jeito de se libertar de Stone. De uma vez por todas.

CAPITULO III

Jamie fitava o bloco de notas sobre a mesa, tentando se desligar do lufa-lufa da redao e organizar as ideias. Precisava planejar a srie sobre adoo, mas apresentar o telejornal a deixara nervosa demais para pensar com clareza. Seu segundo dia frente s cmeras no fora mais fcil que o primeiro e ela agora estava com os nervos a flor da pele.
Precisava achar um jeito de sair do ar, urgente. At pensara em relaxar de propsito na leitura das notcias, o que certamente a faria ser dispensada.
Esfregou a testa, tentando aliviar a dor de cabea. Presso demais, sono de menos. Dormira muito mal, preocupada com o emprego e a reapario de Stone em sua vida.
Fazia mesmo quatro anos? Parecia ter sido ontem que o procurara na redao em Tulsa, tentando divulgar a presena do palhao Boffo num show em prol de crianas deficientes. Ingnua, entrara na sala de controle bem na hora do jornal das cinco.
Com um simples olhar e o indicador frente aos lbios, ele a imobilizara por completo. E, imvel como uma esttua, ela ficara nos quinze minutos seguintes enquanto ele coordenava duas transmisses ao vivo. Tudo nele parecia to msculo, forte, maior que a vida. E ela tremera como gelia. Sua intensa concentrao no trabalho fora a coisa mais sexy que ela j vira.
Curioso... a primeira coisa a atra-la nele fora mais tarde a mesma a separ-los.
Uma sombra surgiu no papel  sua frente, dissipando suas lembranas. Todd Dodson, plido, cenho carregado.
	Ora, vejam s... a srta. Oportunista...  O sorriso era puro sarcasmo.  Voc compreende por que no posso cumpriment-la pela promoo, no , Jamie?
	Todd...  Oh, Deus! Os olhos vermelhos e o mau hlito diziam claramente que a ressaca ainda no passara.
Instintivamente, Jamie afastou a cadeira de perto dele.
	Sinto muito, Todd, de verdade. Tentei ligar para voc um monte de vezes ontem de manh. No consegui ach-lo... no sabia o que fazer...
	Parece que descobriu rpido demais  Todd rosnou, sem pre sarcstico.  Voc queria meu cargo.
	No sei do que est falando...
	Claro que sabe. Voc me entregou. Podia dizer que eu tinha ligado, ter dado uma desculpa, carro quebrado, qualquer coisa. Em vez disso, roubou meu lugar. Graas a voc, fui transferido para a equipe de reportagem.
Todd chegara de ressaca outras manhs, as mos to trmulas que ela mesma tivera de maqui-lo, alm de entupi-lo de aspirina e caf amargo. Mas nunca chegara to bravo. Desta vez, realmente estava nervoso. Jamie tentava manter a calma.
	Sinto muito, Todd. No fiz de propsito.
	Mentirosa  Todd respondeu, furioso. Chegou mais perto. Bem perto. O hlito dava-lhe nuseas.  Voc acabou com a minha carreira, e isso no vai ficar assim  arrematou com olhar ameaador. E saiu.
Jamie afundou na cadeira, o corao descompassado. Nunca na vida fora alvo de tanto dio. Nem ameaada. Fechou os olhos. Respirou fundo. Precisava relaxar.
	O que Todd queria?
Jamie abriu os olhos. Stone estava  sua frente, acompanhando, olhar atento, a sada de Todd.
Jamie engoliu seco. Precisava pensar rpido. Se contasse a Stone, Todd no ficaria nem na equipe de reportagem, seria sumariamente demitido. O sr. Milton dera a Stone plenos poderes sobre a redao. Sabia que a ameaa era inofensiva, Todd na certa entenderia quando se acalmasse e pudesse ouvir explicaes.
Jamie respirou mais fundo, simulando indiferena.
	Nada. S estvamos conversando.
Stone ergueu as sobrancelhas.
	Eu vi. Pela cara dele, acho que sei sobre o qu.  Sentou na beirada da mesa, ps no colo os papis que trazia.  Todd no gostou da nova funo. Se ele criar problemas, avise-me.
A preocupao dele era irritante. Jamie se endireitou na cadeira.
	E a quem devo avisar se voc criar problemas?
	Desculpe por ontem  noite. No queria aborrec-la.  Olhou nos olhos dela, preocupado.  No quero fazer nada que possa ser considerado assdio sexual.
Assdio sexual? Era a ltima coisa em que ela pensaria. Afinal, fora cmplice. Corava s de lembrar como respondera, como queria aquele beijo. Na verdade, fora ela que o assediara. Se ele no tivesse parado, s Deus sabe aonde teriam chegado.
	No se preocupe  Jamie murmurou, desviando o olhar, cruzando os braos defensivamente.
Stone levantou-se.
	Bem, agora que j acertamos isso... veja a correspondncia dos seus fs  ele disse, jogando sobre a mesa o mao de papis.
	Fs? Deixe de brincadeira, sr. Johnson!
	D uma olhada.  Stone indicou os faxes na mesa.
Jamie folheou a papelada. A aflio aumentava  medida que ia lendo. Convites para participar de associaes, pedidos de fotos autografadas, convites para proferir palestras, sugestes de temas para matrias.
	Veja esse  Jamie disse, separando uma das folhas ,  um convite para jantar!
Stone pegou o papel. Leu.
	Est pensando em aceitar?  Stone franziu a testa.
	Por que no?  Jamie resolveu dar corda.
	Pode ser um psicopata, Jamie. O mundo est cheio deles. s vezes escolhem como alvo artistas de televiso.
Jamie tirou-lhe o papel das mos.
	Se est to preocupado... me tire do ar.
	Voc sabe que no posso... mas tome cuidado.  Stone franziu as sobrancelhas, preocupado.
Jamie se emocionou. Nenhum homem se preocupara com ela desde... desde...
Desde Stone. Ningum a fizera sentir-se to amada, mimada, importante, como Stone logo aps o casamento. Pedia sua opinio para tudo. Ouvia, e lembrava, tudo o que ela dizia. Ligava durante o dia s para ouvir sua voz. Deixava bilhetes de amor na sua bolsa. Recortava notcias que poderiam interess-la. Levava-lhe bombons. A vida em comum fora... luminosa como uma tarde de vero.
Ento mudaram para Fnix, e a carreira passou a exigir mais e mais ateno. Stone saa para o trabalho bem cedo, enquanto ela ainda dormia, e s voltava depois do ltimo te-lejornal da noite. Ia  emissora nos fins de semana. Aos poucos, tornou-se o tipo de homem com o qual ela sempre evitara se envolver, fantico por trabalho, como seu pai.
Jamie no queria para si uma vida como a da me: frustrao, solido, viuvez prematura. Tudo porque o marido estava sempre to ocupado em ganhar dinheiro, conseguir status, que nunca tinha tempo de cuidar da sade. Menos ainda da mulher e filha.
Stone ainda estava l,  sua frente. Por que deixara o casamento ruir? E porque agora a colocara naquela situao?
Jamie dobrou o papel.
	Posso tomar conta de mim mesma, obrigada.  Pegou o resto da correspondncia.  O que devo fazer com isso?
	Responder com a carta-padro, como os outros ncoras. Sobre os pedidos de foto, voc tem uma sesso com o fotgrafo  tarde. Depois que o consultor de imagem terminar, claro.
Jamie se endireitou na cadeira.
	Consultor de imagem? Do que est falando?
	Na tev, novos astros sempre recebem orientao profissional. Sobre roupas, cabelo, maquiagem. Voc sabe disso, Jamie.
Ela sabia. E no estava gostando nem um pouco daquela histria.
	Acontece que gosto de mim como sou.
O olhar de Stone vagava pelo seu corpo, vagarosamente. Jamie sentia a temperatura subir.
	Eu tambm, Jamie, sempre gostei...  ele concordou. Mas o consultor pode lhe dar uma aparncia mais... profissional.
	No quero mudar nada.
	Jamie, escute...
	Sr. Johnson!  o editor de planto gritou de longe.  Temos dois fatos acontecendo ao mesmo tempo e s uma equipe na rea. O que prefere cobrir, um incndio ou o capotamento de uma carreta?
	J vou a  Stone respondeu. Voltou-se para Jamie outra vez, ar profissional.  No discuta, Jamie. Procure o consultor no camarim daqui a meia hora.  uma ordem.
De p, feito uma esttua, no centro do camarim, Jamie observava o personagem que andava afetadamente em crculos a seu redor.
	Hmmm...  o consultor murmurava, analisando-a de alto a baixo, tamborilando no rosto os dedos manicurados. Estava todo de preto, o cabelo loiro preso num rabo-de-cavalo. Exibia um bronzeado artificial, provavelmente conseguido  custa de lmpada bronzeadora.
Jamie se ajeitou, incomodada, sentindo-se exposta numa vitrina. Tentando mant-lo sob vigilncia, voltou-se quando examinada pelas costas. A censura, dedo em riste, no demorou.
	No se mova, querida. Preciso examin-la de todos os ngulos.
	A menos que o cameraman esteja de muito mau humor, nunca vou aparecer no vdeo de costas  Jamie resmungou.
 Que tal acabar logo com isso?
	J, j, srta. Erickson. Mas queremos um trabalho completo, no  mesmo?  ele indagou, mos nos quadris, fazendo beicinho.
Jamie ia dizer o que ns achvamos, mas se conteve.
	Sim, queremos  uma voz familiar concordou.
Jamie se voltou e viu Stone encostado no batente da porta, braos cruzados. Endireitou-se ainda mais, indignada.
	Oh, ela no  um caso perdido, sr. Stone! Posso dar um jeito.
Jamie ia ficando cada vez mais furiosa. O consultor levantou uma mecha de seu cabelo.
	Primeiro, o cabelo... cortar, cortar, cortar...  Sempre se dirigindo a Stone, o consultor imitou uma tesoura com os dedos... a cinco centmetros do couro cabeludo.  Para ser levada a srio, ela precisa de um penteado srio.
	No vou cortar o cabelo  Jamie disse por entre os dentes.
Furiosa ela fica ainda mais bonita, Stone pensou, fingindo analis-la objetivamente.
Mas no havia nada de objetivo no que sentia por ela. Nunca houvera. Talvez no fosse uma beleza clssica, mas para ele era a mulher mais linda do mundo, o que s atrapalhara sua vida amorosa depois do divrcio. Toda mulher que encontrava o fazia lembrar de Jamie, e nenhuma podia ser comparada com a ex-esposa.
Para ele, Jamie era perfeita. Mesmo ao levantar de manh, sonada, amarfanhada, ou ao sair do chuveiro, ainda molhada.
Jamie sempre o fazia perder a cabea. Por isso ele decidira seguir o procedimento normal para novos talentos, submetendo-a a um consultor de imagem.
Stone esfregou o queixo, pensativo. Jamie era teimosa. Para faz-la cooperar, teria de fazer parecer que a ideia fora dela mesma.
	Concordo com Jamie  disse.  Vamos deixar o cabelo como est. Fica mais comum... cotidiano.  Jogou a isca, enfiou as mos no bolso.  Outra coisa,  melhor no fazer um trabalho to completo, s algum realce. Talvez a simplicidade seja seu ponto mais forte.
A expresso ultrajada sugeria que Jamie mordera a isca.
	No sabia que voc tambm era especialista em beleza 	disse por entre os dentes.
	No sou. Apenas posso reconhec-la quando a vejo.
Em mim, no reconhece nenhuma, Jamie pensou, baixando o olhar.
Mas por que se importar? No queria que ele a achasse atraente. Ou queria? Claro que no. S estava reagindo como reagiria qualquer mulher cuja aparncia fosse depreciada.
Ainda assim, sentia-se diminuda. Mas no demonstraria. Levantou o olhar outra vez. Encarou Stone.
	J que  to perspicaz, talvez devesse ficar mais um pouco e escolher as cores da sombra para os olhos?
Stone sorriu.
	No posso. Tenho de olhar a pauta do jornal das cinco. 	Dirigiu-se ao consultor:  Lembre do que eu disse... s um realce. Melhor ela no parecer fascinante demais.  Acenou e, dando meia-volta, saiu da sala.
Jamie cerrou os punhos. No sabia o que era mais irritante: ele t-la mandado ao consultor ou ter dito ao especialista para no fazer grandes mudanas.
No, talvez mais irritante fossem os termos que usara para descrev-la... comum... cotidiana... Mas ela tinha um plano. Stone no perdia por esperar.
O consultor abriu uma sacola de couro enorme, contendo uma infinidade de pincis e produtos de maquiagem.
	Sente-se, querida, vamos ao trabalho...  Sorriu com afetao, prendendo os cabelos dela na nuca.
Jamie obedeceu. Vestiu o avental.
	Eu...  comeou  concordo que devemos manter minha aparncia simples, mas estou certa de que em certas ocasies especiais vou precisar de um ar mais... requintado. Voc poderia me mostrar como fazer isso?
Os olhos do consultor brilharam. Ele devia adorar pedidos assim. Esfregou as mos, animadssimo.
	Claro, querida! Posso trans-for-m-la. Quando eu terminar, voc nem vai se reconhecer!
Jamie pensou em desistir. Mas conseguiu coragem para responder:
	Que bom!
Da sacola saram muitos tubos e potinhos.
	Esta  a artilharia pesada, querida...
Jamie recostou na cadeira, sorrindo satisfeita. Mal podia esperar a reao de Stone quando a visse no ar no dia seguinte, como uma danarina de boate.
	Quanto mais pesada, melhor. Use toda sua criatividade. 
A noite, em seu quarto, Jamie estudava a imagem refletida no espelho. Aproximou-se, passou mais uma camada de delineador, afastou-se, avaliando o resultado. Seguira cuidadosamente as instrues do consultor, usara todos os produtos recomendados. Mais prodigamente, claro.
A mulher no espelho tinha as mas do rosto salientes, lbios vermelhos, brilhantes, nenhuma sarda. Mas havia algo errado. Ainda no era o efeito pretendido.
Jamie acabara de pegar o pote de creme de limpeza quando a campainha tocou. Com o pote na mo, ar ainda insatisfeito, foi atender a porta.
	Meu Deus, Jamie,  voc?  Flossie, com uma tigela nas mos, estava boquiaberta.
	Em carne e osso, vov.  Jamie tentou sorrir.
	Experimentei uma nova receita da tev, mas rendeu tanto que trouxe um pouco para voc.  A av entrou. Parou de repente sob a luminria do vestbulo.  Meu Deus, o que voc fez? Parece estrela de cinema! Jamie fechou a porta.
	Pior  resmungou.  Pareo ncora de televiso.
	Pela sua expresso, parece que no est gostando. No quer me contar por qu?
	Quero convencer Stone de que no sirvo para ncora.
A av franziu a testa.
	Geralmente entendo logo, mas dessa vez estou tendo dificuldade...
	Vamos at a cozinha. Explico enquanto tiro a pintura de guerra.
Foram. Jamie deixou as coisas sobre o balco. Sentaram-se  mesa.
	Stone me mandou ver um consultor de imagem. Depois lhe disse para no fazer grandes mudanas em mim, para no estragar minha aparncia... cotidiana. Jamie sentia o sangue ferver. Levantou da cadeira. Comeou a andar pela cozinha.
 Existe coisa mais ofensiva? Ento pedi umas dicas extras ao consultor. E tudo o que consegui foi isto.
A av inclinou a cabea de lado. Deu uma risadinha.
	Talvez fosse exatamente o que Stone quisesse.
Jamie parou. Arregalou os olhos.
	Voc acha que ele tentou... me induzir?
	Talvez...  Flossie endireitou os ombros. Sorriu.
Ento Stone, deliberadamente, a induzira a fazer o que ele queria! Jamie estava possessa.
	Aquela vbora...
	Eu no diria isso  Flossie ponderou calmamente.
	Ah, no? E diria o qu?
	Esperto, talvez...  A av encolheu os ombros.  Conhecendo voc como ele conhece...
Se a av estivesse certa, ele pretendia que ela fizesse exatamente o contrrio do que sugerira... o que significava que a conhecia bem demais.
	Que golpe baixo! Aquele manipulador...  resmungava, retirando do pote uma generosa poro.
Como ela pudera ser to ingnua? Stone a induzira a fazer exatamente o que ele queria. Mas, agora que sabia de tudo, tomaria uma providncia.
	Vou fazer o jogo dele, vov.  Jamie espalhava creme pelas bochechas.  Stone precisa de uma lio.
A av franziu as sobrancelhas, preocupada.
	O que vai fazer?
O feitio vai virar contra o feiticeiro...  Jamie sorria.
Um sorriso misterioso, que deixava a av ainda mais intrigada.
 Vai ser bom. Muito bom, mesmo. Vai ser timo.

CAPITULO IV

Harold arregalou os olhos quando Jamie entrou .no estdio na manh seguinte.
	Voc vai para o ar desse jeito?
Jamie olhou para a camiseta cinza, achando que talvez tivesse mesmo exagerado. Roupa velha e cara lavada eram uma coisa, mas maria-chiquinha era um pouco demais.
Engoliu seco. Com aquela roupa, no teria coragem de ir nem  quitanda, mas apareceria na televiso, para duzentos e cinquenta mil espectadores.
Agora no tenho escolha, pensou. O nico jeito de sair do ar era tomar uma medida drstica.
O contrato que assinara nada dizia sobre aparncia, no a obrigava a usar penteado nem maquiagem pr-determinados. Alm disso, no tinha tempo de mudar de ideia nem de roupa. O relgio do estdio dizia que faltavam menos de trs minutos para o jornal comear. Jamie seguiu por entre os cabos at a mesa de ancoragem. Sentou.
Rob Estes, que a substitura na produo do programa e estava examinando o teleprompter, ficou apavorado ao v-la.
	Meu Deus, Jamie, ainda no se vestiu?
	J  ela respondeu com toda a calma, prendendo o microfone no decote da camiseta, que, com o peso, enrugou. Jamie tentou consertar. No conseguiu.
	Mas... pensei que voc estivesse no camarim mudando de...  Rob estava desesperado.
Jamie compreendia aquela aflio. Tambm passara algumas manhs difceis com Todd.
	Tudo bem, Rob  Tentou tranquiliz-lo.  Eu assumo toda a responsabilidade.
	Mas... voc no pode fazer isso...
	Um minuto...  era a voz do diretor.
	A roupa  problema seu  Harold interrompeu , mas o som  problema meu. Preciso do tom de voz j.
Jamie testou o microfone, olhou para Rob, imvel, paralisado, rosto acinzentado.
	Trinta segundos...  o diretor avisou.
	No se preocupe, Rob  Jamie insistiu , voc no vai se encrencar. Ningum espera que me siga ao camarim e vigie meus movimentos. Agora, cuide do teleprompter.
Rob finalmente se mexeu. O diretor j iniciava a contagem regressiva.
Trinta minutos depois, Jamie tirou o microfone, aliviada.
	O sr. Johnson vai nos matar  Rob gemeu.
	Pode deixar, eu cuido dele  Jamie disse, saindo do sei.
Foi para a redao, preparada para o desfecho. Se Stone insistisse em mant-la no ar, usaria a mesma camiseta no dia seguinte. E no outro, e no outro. Mais cedo ou mais tarde, ele teria de se render.
A secretria da redao sorriu ao v-la entrar.
	Voc  a ncora mais popular do Texas. Congestionou as linhas telefnicas.
Jamie olhou para a mesa telefnica. Todas as luzes vermelhas estavam acesas, piscando.
	Parece que todo mundo tem algo a dizer sobre sua aparncia informal  a secretria informou.
Jamie ficou apreensiva. Preocupada com a reao de Stone, nem pensara no que o pblico acharia.
	Quem est atendendo as ligaes?
	Stone... na sala dele.
O corao de Jamie acelerou.
	E o humor dele, como est?
	Sei l, nunca se sabe, mas queria v-la assim que chegasse.
Deve estar furioso, Jamie pensou, nervosa. Parou na porta da sala. Respirou fundo. Bateu.
	Entre...
Stone estava sentado atrs da mesa, ao telefone, semblante inescrutvel. Fez sinal para Jamie entrar.
	Obrigado pelos comentrios  dizia ao telefone.  A opinio do pblico  sempre valiosa para ns. Vamos levar em conta suas observaes...
Indicou uma poltrona. Jamie afundou, devagar, no couro bordo. O corao palpitava.
Que bom seria saber o que ia pela cabea dele, atrs daquela expresso impenetrvel. Uma coisa que sempre detestara nele era a incrvel habilidade de esconder as emoes, manter-se impassvel.
	Obrigado por ligar... e por assistir ao telejornal do canal trs.  Stone desligou. Voltou-se para ela. Sorriu satisfeito, mostrando a covinha.
Pega de surpresa, Jamie cruzou os braos, na defensiva.
	Ora, ora, ora...  disse, devagar. Voc est linda hoje! 	Chamou a secretria pelo interfone.  Sue, atenda as prximas ligaes, por favor. Apenas oua, anote os comentrios, pegue nome e endereo.
Levantou da cadeira. Deu a volta na mesa. Sentou no tampo, to perto que seu p quase roava a perna dela. Jamie engoliu seco, nervosa, preparada para o pior. Sentiu um calafrio na espinha.
	Jamie, desculpe, subestimei voc...  A voz era baixa, macia, sedosa.
Jamie pigarreou. Ajeitou-se na poltrona. No esperava aquele tipo de conversa. Olhava cautelosamente, ouvindo.
	Achava que conhecia todos os truques, mas voc me ensinou mais um. Nunca imaginei que conhecesse to bem o pblico local.
	Quer ser mais claro, por favor, sr. Stone?  Jamie se esforava para aparentar tranquilidade.
Stone sorriu de novo.
	Quando liguei a tev hoje cedo e vi voc com aquela roupa, quase cortei meu pescoo.  Passou a mo sob o queixo.
	Estava fazendo a barba.
Stone se inclinou para a frente, as mos apoiadas nas coxas. E o olhar de Jamie viajou para o sensual contorno daqueles msculos sob a cala de brim justa. Perturbada, desviou o olhar. Levantou o queixo. Voltou a prestar ateno na conversa.
S estava seguindo suas instrues. 
Stone cerrou o olhar.
 mesmo? Quer dizer que esse...  Mediu-a de alto a baixo.  ...essa produo  coisa do consultor de imagem?
Claro que ele no acreditava naquilo. Jamie evitava seu olhar.
	Sim... de certa forma.
	De que forma?
	Bem, voc disse que eu deveria parecer comum... cotidiana... Resolvi seguir seu conselho.
Stone parou um momento. Jogou a cabea para trs. Riu.
	E chegou a tal ponto s para me agradar? Estou sensibilizado pelo seu esprito cooperativo.
Jamie se endireitou na poltrona.
	Estou sendo bem clara, mas parece que voc no entendeu a mensagem. No quero ser ncora. No sou boa nisso. No sou a pessoa certa.  ridculo voc tentar me obrigar a ser algo que no sou.
Jamie disse tudo o que pensava, rpida e rispidamente. Stone voltou a apoiar as mos nas coxas.
	E estava tentando provar a tese. No deu certo, Jamie.
O tom era irritante. Calmo como o de um adulto falando a uma criana travessa.
	Se acha que este foi um incidente isolado, est enganado. Meu contrato no diz nada sobre aparncia. Vou usar a mesma roupa, ou pior, sempre que voc me forar a ir para o ar.
Stone sorriu. Um sorriso benevolente:
	Por.mim, tudo bem.
Jamie cerrou os punhos, incapaz de esconder a raiva.
	Se no acredita, experimente!  ameaou.
	Acredito, Jamie  ele assentiu, indiferente a toda aquela hostilidade.  Como j disse, por mim tudo bem.
Jamie abriu a boca. Fechou. No sabia mais o que dizer. Ele falava srio, embora sorrisse.
	Talvez queira saber o que o pblico achou da sua aparncia.  Stone acionou o interfone.  Sue, traga as ltimas chamadas telefnicas, por favor.
A secretria entrou. Arriscou um olhar curioso para Jamie. Entregou a Stone uma pilha de recados. Saiu. Stone folheou os papis.
	Veja este... Gostei da aparncia da nova apresentadora. Foi como saber das notcias atravs de uma velha amiga.
Jamie franziu as sobrancelhas, confusa.
	Este outro  Stone prosseguiu  deve ser de uma mulher...  timo ver na tev as seis da manh algum com a mesma aparncia que eu tenho a essa hora.
	Veja mais este... Consegui prestar ateno no que ela dizia em vez de me distrair com sua aparncia.
	Mais um...  muito bom ver na tev algum que parea de carne e osso.
Jamie estava abobalhada. O pblico gostara de sua aparncia? Impossvel! Stone devia estar aprontando mais uma.
	Quero ver isso  disse, estendendo a mo. Na certa ele inventara tais comentrios s para engan-la.
Stone sorriu. Entregou-lhe os papis. Jamie o encarou de-safiadoramente antes de comear a ler.
Enfim na tev uma mulher que no parece de plstico, dizia o primeiro. Atordoada, Jamie olhou de relance para Stone. Leu outro: Gostaria de ver aquela moa de maria-chiquinha mais vezes no ar. Mais outro: Como posso conseguir uma foto autografada da moa nova do telejornal?
Bem, estarem ali escritos no significava que fossem verdadeiros, Jamie pensou. Colocou os papis sobre a mesa. Encarou Stone.
Se acha que vou cair no seu jogo, est muito enganado.
	Jogo?  Stone sorriu.
Jamie empinou o nariz.
	No nasci ontem. Sabia o que voc estava tramando ontem com aquela histria do consultor, e sei o que est tramando agora.
Stone coou o queixo. Franziu as sobrancelhas. Enrugou a testa.
	Vamos ver se entendi... Como eu disse que queria uma aparncia comum, voc achou que eu queria uma aparncia embonecada.  Seu olhar se iluminou.  E a optou por esse estilo faxina-na-garagem?
	Exatamente  Jamie concordou.
	E agora acha que os recados so falsos?
	Isso mesmo.
	Compreendo...  Stone disse, pegando o telefone. Apertou o boto de viva-voz.  KZZ, bom dia!  Atendeu uma ligao, sem tirar os olhos de Jamie.
	Liguei para falar sobre aquela moa do telejornal da manh  uma voz feminina foi logo dizendo.
	Sei, a senhora se refere a Jamie Erickson  Stone disse, sempre olhando para Jamie.
	Isso mesmo  a voz concordou.  E queria dizer ao chefo a que achei a moa fantstica. Geralmente vejo o canal quatro, mas hoje de manh a tev estava no trs quando liguei. Ela era to diferente que resolvi olhar um pouco. Ela  incrvel! Diga isso a ela, por favor!
	Com prazer  Stone respondeu.  Obrigado por ligar.
Jamie ainda no estava convencida.
	Pode ser coincidncia.
	Voc acha?  Stone atendeu outra ligao.  KZZ, bom dia!
	Gostei da locutora do jornal.  Agora era voz de homem.  Entrar no ar vestida daquele jeito foi uma atitude poltica sria. Ela deixou claro que o importante so as notcias, no a aparncia das pessoas. Todos precisamos enxergar alm da raa, idade e outras diferenas superficiais... e respeitar uns aos outros...
	Obrigado pela opinio  Stone interrompeu antes que o homem se atrapalhasse.  Ela ser levada  direo. Tenha um bom dia.
Desligou e olhou para Jamie. A expresso atnita indicava que ela finalmente compreendera.
	Ainda acha que os recados so falsos?
	No  ela resmungou.
	Se quiser, podemos atender mais algumas ligaes.
	No  preciso.  Jamie encolheu-se na poltrona, confusa.
A frustrao contida no tom calou fundo no peito de Stone.
	Existem coisas piores que ser querida pelo pblico, Jamie  Stone disse, voz baixa.  Mas ser ncora tem suas compensaes.
	Diga uma.
	Salrio... verba de vesturio... convites para festas grandiosas. Hoje mesmo vai haver uma. A KZZ tem uma mesa no baile da Academia de Artes. Muitos possveis anunciantes vo estar l.  uma tima oportunidade de exposio para a emissora.
	Detesto festas grandiosas  Jamie comentou.
O baile da Academia de Artes era o acontecimento social mais importante do ano. Gente de todo o pas estaria presente ao evento, realizado na imensa manso doada por um magnata do petrleo ao Conselho de Artes de Fairfield.
	No precisamos ficar muito tempo. Ficamos um pouco, jantamos e vamos embora.
	Ficamos? Quem?  Jamie estranhou.
	O sr. Milton me pediu para lev-la  Stone respondeu.  Pego voc em casa s sete.
	No quero ir.

	Desculpe, Jamie,  uma extenso do trabalho.
Jamie se ajeitou na poltrona. Encarou-o de frente.
	No tenho o que vestir!
Stone se mantinha impassvel.
	Considerando o sucesso da sua roupa de hoje, acho que voc pode ir assim mesmo. Talvez seja boa ideia tornar esse ar desleixado sua marca registrada.
Jamie olhou para a camiseta gasta, puxando-a com as duas mos.
	Voc quer que eu v ao baile da Academia de Artes assim?  perguntou, incrdula.
Stone deu de ombros, fingindo indiferena. Temia que, se oferecesse a menor resistncia, ela fosse mesmo daquele jeito. Jamie recebera um cheque generoso para despesas com vesturio, poderia usar parte dele para comprar algo apropriado. Aps o jornal do meio-dia, estaria dispensada. Logo, teria tempo suficiente.
Resolveu dar-lhe um empurrozinho na direo do shopping center.
	Parecer desmazelada talvez seja uma boa maneira de promover o jornal da manh.
A ruga de preocupao na testa dela parecia bom sinal. Era hora de tir-la dali. Stone cruzou a sala. Abriu a porta. Jamie levantou. Saiu.
	Vejo voc s sete  ele disse, fechando a porta.
Se pudesse tir-la da cabea com a mesma facilidade...

CAPITULO V

Anoitecia quando Stone parou o jipe branco em frente  casa de tijolinhos vermelhos no bairro
mais antigo de Fairfield. Uma casa pequena mas marcante.
Como Jamie.
A batida da porta do carro ecoou pela rua silenciosa. Stone atravessou o gramado, subiu os degraus da varanda.
	Boa noite  uma voz conhecida disse.  Voc fica ele gante de smoking...
Stone se voltou. Era Flossie, sentada num banco de balano no fundo da varanda.
	Voc tambm est muito elegante  retribuiu o elogio, seguindo na direo dela.
Feliz com o elogio, a av ajeitou o lao na gola do vestido estampado em tons de rosa. Indicou o lugar a seu' lado.
	Sente-se. Jamie est se vestindo.
: Ser que vai pr um vestido?  Stone sentou a seu lado no banco de madeira. A av sorriu.
	Espere s.  Ajeitou os culos no nariz.  Tambm estou esperando. Vim aqui buscar uma tigela e resolvi ficar para ver o resultado. Aposto que vai ser melhor que qualquer programa da tev. Acho que ela quer lhe fazer uma surpresa.
	Outra? J fez uma de manh. Sua neta me d muito trabalho.
A av olhou para ele. Inclinou a cabea de lado.
	Jamie no gosta que lhe digam o que fazer. Nunca gostou. E, principalmente, detesta se sentir manipulada.
Stone coou o queixo. Ele tambm detestava. Na verdade, sentir-se manipulado por Jamie fora um dos motivos do rompimento.
	 isso que ela acha que eu fiz?
	E no fez?
Stone suspirou. Com o p, balanou o banco.
	Talvez. Mas no consigo entender por que ela resiste tanto a algo que  claramente do interesse dela.
	Para entender Jamie...  Flossie deu umas palmadinhas na mo dele.  ... preciso entender os pais dela. E ela no fala muito no assunto. Voc s encontrou Cheryl uma vez, no foi?
Cheryl era a me de Jamie.
	Exato. Fomos passar um fim de semana na Flrida logo depois do casamento  Stone concordou.
	Ento voc deve ter notado que minha filha adorava ser o centro das atenes. Seu sonho era ser atriz, ver seu nome nos letreiros.
Stone alisou a corrente que sustentava o balano. Sim, notara. E se surpreendera ao ver que a me de Jamie era uma loira-platinada, que usava jias em demasia e gesticulava excessivamente.
	Bem diferente de Jamie.
	Mais precisamente  Flossie murmurou , Jamie  o oposto da me. Cheryl nunca chegou  Broadway ou Hollywood, e queria que a filha realizasse seu sonho frustrado. Como tinha tempo de sobra porque o marido nunca estava por perto, dedicou toda a sua energia a preparar Jamie para o estrelato.
Stone olhava pensativo para Flossie.
	E Jamie se revoltou...
	No comeo no. Jamie era s uma criana, ansiosa para agradar a me e... ganhar a ateno do pai. Seu pai era...  A av hesitou, franziu os lbios.  bem, no gosto de falar mal de quem j morreu, mas ele era tremendamente crtico. E Jamie queria que eles se sentissem orgulhosos. Frequentava incontveis aulas de interpretao, recitais de dana, lies de canto, e sei l o que mais.
	E detestava.
Ela concordou com um gesto de cabea.
	Ironicamente, Jamie tinha talento, muito talento. Por natureza, sempre foi calada, mas tinha algo que, frente ao pblico, a fazia brilhar.  A av olhou para os lados, preocupada.  Ela j lhe contou que costumava gaguejar?
Stone assentiu.
 Uma amiga dela mencionou certa vez, mas nunca soube em detalhe. Jamie dizia que detestava falar nisso. Toquei no assunto algumas vezes, mas ela sempre desconversava.
Jamie sempre usava tal tcnica para evitar assuntos que no queria discutir, Stone lembrou. E isso sempre o fazia sentir-se excludo, o que causava uma sensao dolorosa, muito familiar durante a infncia. E ele nunca aprendera a lidar com tal sentimento de solido e desamparo na infncia. Tampouco durante o casamento.
Assim, permitira que Jamie se mantivesse a distncia. s vezes parecia estarem separados por uma muralha invisvel: podia ver a esposa, toc-la no. S na cama parecia conseguir superar todas as reticncias de Jamie.
Stone tentava se concentrar na conversa.
	Jamie no gagueja mais  disse.
	S quando tem de discutir o assunto, por isso o evita a todo custo. Mas s conseguiu resolver o problema depois de muita terapia.
Stone deteve o balano. O problema fora to srio que exigira terapia? Por que ele, casado com ela quase um ano, nunca soubera de algo to importante?
	Que idade Jamie tinha quando comeou a terapia?
	Estava no ginsio. A me a tinha inscrito no clube de oratria da escola e, durante um debate no auditrio, Jamie emudeceu. No conseguia dizer palavra. Foi horrvel. Ficava gaguejando a mesma slaba, e as crianas rindo sem parar. Jamie abandonou o palco chorando. E nunca mais cooperou com os planos da me.
	Disso eu j sabi  Stone disse, imaginando a cena. Ele prprio conhecia bem a dor causada pelo ridculo.
	Meu palpite  que tanta insistncia em transform-la em ncora a faz lembrar aquele tempo que ela quer esquecer.   A av deu umas palmadinhas na perna de Stone.  Mas voc no  o nico culpado... ela tambm no gostou daqueles meus telefonemas.
Stone ouvia, pensativo.
Como voc acha que eu deveria agir daqui para a frente? Aceito sugestes.
A av balanou a cabea. Encolheu os ombros.
	No sei, Stone. S achei que seria til entender o problema.
	Que problema?  uma voz interrompeu.
Stone olhou. Uma silhueta de mulher ocupava o vo da porta, iluminada por trs, pela luz do hall. Roupa longa. Preta. Decotada. Colante. Realava todas as suas curvas.
Stone reconhecia a voz, mas... De repente, levantou-se num pulo.
	Jamie?!
Jamie fechou a porta. Saiu  luz da varanda.
Stone estava boquiaberto. Olhou-a atentamente de alto a baixo. Dos brincos de strass aos saltos altssimos dos elegantes sapatos de cetim. Nunca a vira assim... cabelos penteados para trs num coque fofo, olhos e lbios maquiados, as formas generosas acentuadas pelo vestido sofisticado.
	Espero no t-lo desapontado, sr. Stone. Jamie recostou na balaustrada da varanda.
Stone no conseguia tirar os olhos daquele decote, fascinado pela maneira como ele subia e descia quando ela respirava.
	Desapontado?  perguntou, distrado, ainda tentando acreditar no que via. Stone pigarreou. Precisava manter a cabea no lugar. Stone se sentiu um idiota.
Jamie ergueu as sobrancelhas.
	Podemos ir?
	Posso escolher?
Stone riu de novo. Era mesmo a Jamie de sempre. E a ideia lhe agradava. Bastante.
	Na verdade, no pode. A direo da KZZ faz absoluta questo da sua presena nesse baile.
Jamie engoliu um pedao de bolo de chocolate, fingindo interesse na tagarelice da sra. Milton, esposa do diretor. Mas seu interesse estava concentrado em Stone, sentado ao seu lado na mesa.
A proximidade a perturbava. Stone, no entanto, parecia alheio  presena dela. Durante todo o jantar fora gentil e cordial, mas no lhe dedicara mais ateno que s outras oito pessoas daquela mesa.
Cumprindo a palavra empenhada, no fazia nada que pudesse ser considerado assdio sexual. Ento por que se sentia to desapontada?
Um garom de luvas brancas comeou a tirar os pratos. Do outro lado do salo decorado com candelabros, os msicos da orquestra comeavam a se acomodar.
Stone deixou o guardanapo na mesa, afastou a cadeira, dirigiu-se a todos sem distino:
	Acabo de ver uma antiga colega do outro lado do salo, vou cumpriment-la. Com licena.
Instintivamente, o olhar de Jamie o seguia, junto com vrios outros, femininos, claro, provenientes das mesas vizinhas. De smoking, ele ficava irresistvel, impossvel negar.
Stone parou numa certa mesa, tocou o ombro de uma loiraa de vestido vermelho, justssimo. A loira levantou-se incontinenti. Sorriu, beijou, abraou-o. Afastou-se um pouco, sorriu de novo, pestanejou sedutoramente, bem mais perto do que seria necessrio, permitindo um dose do decote generoso.
Jamie espremeu o guardanapo. Olhou para a prpria roupa. Por que caprichara tanto? A si mesma, dizia que para refutar a sugesto de Stone, que sugerira camiseta. Mas talvez fosse uma desculpa.
Talvez o motivo fosse orgulho feminino. Ela queria mostrar no ser to comum... cotidiana. Queria impression-lo.
Constatar aquilo doa. Principalmente porque no estava funcionando. Olhou de novo para os dois. A loira segurava o brao dele, e ria.
A sra. Milton se aproximou.
	Gordy me contou que voc foi casada com Stone. No sei o que aconteceu, querida, mas  uma pena. Ele  encantador!
Ento Stone comentara o assunto com o diretor da emissora?! Bem, talvez aquilo no fosse assim to surpreendente. Corre to como era nos negcios, ele no deixaria de esclarecer seu relacionamento com a mulher que estava recomendando para ncora. Se viessem a saber mais tarde, sua reputao seria prejudicada. Poderia parecer nepotismo, improbidade administrativa...
Improbidade? Hmmm... talvez fosse um bom caminho para sair do ar.
Jamie voltou a olhar para Stone, bem a tempo de ver a loira colocando um carto em sua mo.
	Termos sido casados representa um problema?  perguntou  sra. Milton.  Lembro-me de ter lido no manual do funcionrio que a poltica da emissora probe romances entre funcionrios. Talvez seu marido desaprove ex-cnjuges trabalhando juntos.
O penteado da sra. Milton, duro de laqu, nem se mexeu quando ela sacudiu a cabea e olhou para o marido, no outro lado da mesa.
	J disse ao Gordy que essa  a regra mais boba que ele j inventou, mas ele no me ouve. No se preocupe, querida. 	A sra. Milton deu umas palmadinhas na mo de Jamie.  Essa regra s se aplica a romances... ativos.
A orquestra comeava uma seleo dos anos quarenta quando Stone voltou para a mesa, impregnado de um perfume forte, ostentando no rosto uma mancha de batom. Talvez uma certa improbidade fosse mesmo til, Jamie pensou, enciumada.
Aproximando-se dele, comeou a limpar a mancha. Quando finalmente terminou, abriu um sorriso radiante.
	Vamos danar?  convidou.
Stone s olhava, cauteloso.
Temendo que ele recusasse, Jamie levantou da cadeira. Segurou seu brao.
	Vamos, no seja chato.  Olhou em volta. Todos, inclusive o sr. Milton, olhavam com interesse. Puxou Stone pelo brao.
	Vamos, benzinho... essa era uma das nossas preferidas.
Sem alternativa, Stone foi. Jamie sorria satisfeita.
Comearam a danar. Stone abraou sua cintura. Forte. Instantaneamente, Jamie percebeu o erro que cometera.
Oh, Deus, como pudera esquecer? Aquele peito to forte... aquele corpo que se encaixava no dela to perfeitamente... aquelas coxas musculosas roando nas dela enquanto danavam... Jamie comeava a sentir falta de ar, e lembrar-se de outra noite, de outro baile, quando danara com Stone pela primeira vez.
Fora h quatro anos, na festa de Natal da emissora, num hotel de Tulsa. To logo cara nos seus braos, Jamie percebera estar perdidamente apaixonada, fascinada pelo seu toque, seu cheiro, seu calor, sua envolvente masculinidade. Saram apenas duas ou trs vezes antes, mas ela j estava segura de que ele era o seu homem, era tudo o que ela sempre sonhara: bom, inteligente, divertido, cuidadoso. E mais sexy do que qualquer homem tinha direito de ser.
Determinao era sua qualidade mais marcante. Era um homem que lutava pelo que queria, e deixava claro que queria a ela. Ser o alvo prioritrio de Stone fora a experincia mais emocionante de sua vida.
Naquela noite, enquanto danavam sob as luzes da grande rvore de Natal, Stone conseguira emocion-la ainda mais, murmurando ao seu ouvido um convite para esquiarem em Tahoe depois do Natal.
Ela aceitara, claro. Afinal, no tinha compromisso para as festas. A av ia excursionar pela Terra Santa e a me, recm-casada novamente, acabara de mudar para a Flrida. Os noivos a convidaram para passar os feriados com eles, mas ela preferira no incomodar.
Fora com Stone para Tahoe e tambm voltara recm-casada, pois a viagem inclura escala numa capela.
	Vai explicar essa repentina vontade de danar, ou vou ter de adivinhar, benzinhol
Jamie se endireitou. Afastou-se, percebendo de repente onde estava. Inebriada, esquecera por que sugerira danarem.
Olhando ao redor, viu que Stone a levara para o fim da pista, longe da mesa da KZZ. Outros pares impediam que fossem vistos pelas pessoas que ela pretendia iludir.
Droga! Outro fiasco. Jamie olhou para Stone, que sorria um sorriso travesso.
	Queria que o sr. Milton achasse que estamos envolvidos, certo?
Jamie desviou o olhar, fingindo observar os casais danando, Estava corada pelo olhar de Stone e pela incmoda sensao de que ele podia ler seus pensamentos.
	Agora vou adivinhar por qu. Quer que ele pense que estou infringindo a poltica da casa, que probe casos entre funcionrios...
Jamie no confirmou. No lhe daria aquele prazer. Seguia olhando ao redor, lbios comprimidos.
Stone segurou seu queixo. Levantou. Olhou nos olhos dela.
No vai dar certo, Jamie. Primeiro, porque no sou funcionrio, sou consultor. Segundo, se est tentando induzi-lo a pensar que foi promovida por causa de um relacionamento em vez dos prprios mritos, est no caminho errado. Voc  um sucesso de audincia, e isso  tudo o que interessa ao sr. Milton.
Stone soltou seu queixo. Ele se afastou, apenas o suficiente para olhar nos olhos dela.
	Fazia tempo que no me sentia to bem como agora... com voc nos braos.
	Quanto tempo?  Jamie sussurrou, sentindo a temperatura subir.
	Trs anos, dois meses, e...  Stone parou, calculando mentalmente  ...doze dias.
Ouvir aquilo acabou com o que ainda restava de sua serenidade. Se ele no a estivesse segurando, Jamie teria cado.
	Eu disse que no tocaria em voc se a iniciativa no fosse sua. Achei que me tirar para danar foi um sinal verde.
Jmie no conseguia raciocinar.
A msica acabou, interrompendo seu devaneio. Jamie se afastou, cambaleando sobre os saltos altos. Stone a segurou pelos braos, devolvendo-lhe o equilbrio.
	Obrigado pela dana, Jamie.
Jamie no ousava olhar para ele. Tinha medo do que poderia ver naqueles olhos, ou do que os seus poderiam revelar.
Stone a levou de volta. Jamie tinha os nervos  flor da pele, sabia que no conseguiria simplesmente sentar e retomar o bate-papo com o pessoal da mesa. Precisava de algum tempo para se refazer. Murmurando uma desculpa, pegou a bolsa e foi para o banheiro.
No banheiro, molhou uma toalha de papel, passou no pescoo, respirou fundo.
	Est calor na pista de dana  uma mulher de meia-idade disse, lavando as mos na pia ao lado.
Bem mais do que voc imagina, Jamie pensou, dirigindo-lhe um sorriso tmido. A mulher enxugou as mos e saiu.
Que exagero! Era preciso manter o controle. Tudo aquilo s porque Stone admitira sentir falta dela? S porque sabia o exato nmero de dias transcorridos desde a separao?
Jamie  saiu, jogando a toalha de papel na lixeira, e achando que devia fazer o mesmo com suas ridculas iluses romnticas.
Mal sara para o salo, uma mo segurou seu cotovelo. Jamie se voltou. Deparou-se com os olhos injetados de Todd.
	Ento foi casada com aquele consultor...  Todd arrastava as palavras, efeito do lcool.  Agora que virou ncora voc vai receber menos penso?
	Nunca recebi penso de Stone  Jamie tentou escapar, mas Todd apertou seu brao ainda mais.
	Ento a recompensa deve ser outra.  Todd arreganhou os dentes num sorriso lascivo.  Pela forma como danavam...
	Voc bebeu demais, Todd. Deve ir para casa antes de arrumar encrenca. Quer que eu chame um txi?
	No se preocupe comigo, mocinha.  O sorriso era de escrnio.  Melhor se preocupar consigo mesma...
Jamie sentiu um. arrepio na espinha. Puxou o brao, deu-lhe as costas, atravessou o salo rapidamente.
Chegou  mesa, as pernas bambas. Afundou na cadeira. As mos tremiam quando pegou seu copo de gua.
Stone percebeu. Observando-a, olhar sombrio, perguntou:
	Tudo bem, Jamie?
Jamie hesitou. No queria contar sobre Todd. Ele s estava bbado. Se contasse, Stone provavelmente o demitiria.
	Tudo bem  respondeu.  Est abafado aqui, s isso.
	Como eu disse, no precisamos ficar at tarde. Quer ir embora?
	Quero  Jamie respondeu aliviada.  Foi um dia cansativo.
Despediram-se de todos. Quando j saam do salo, nmflash iluminou o rosto de Jamie. Quando finalmente parou de ver estrelinhas, percebeu  sua frente um homem alto, portando uma mquina fotogrfica.
	Sou do jornal, srta. Erickson.  O homem sorriu, exibindo uma falha nos dentes.  Posso tirar outra foto?
Stone saiu de lado. Antes que Jamie pudesse protestar, o ftash voltou a espocar.
	Obrigado, srta. Erickson.  O homem baixou a mquina.
Stone segurou seu brao e saram.
	O que foi aquilo?  Jamie perguntou.
	Voc agora  uma celebridade  Stone respondeu, sorrindo.
	Parecia uma emboscada.
	Faz parte do jogo  Stone comentou.  Mas no h por que se preocupar, Jamie. Voc no sairia mal numa foto nem se quisesse.  Abriu a porta para ela.
O ar frio da noite fez com que Jamie se encolhesse. Stone, muito gentil, tirou o palet e colocou-o nos ombros dela. Com um sorriso observou:
	Voc continua friorenta. Aposto que seus ps esto gelados.
Ouvir aquilo provocou um vazio no estmago. Seus ps frios eram sempre motivo de brincadeira entre eles.
	Voc ainda dorme com meias de l?
Jamie, que costumava dormir sem roupa, s de meias, corou. Ainda bem que o estacionamento era mal iluminado.
	No  da sua conta.
Stone fechou a porta. Deu a volta no carro. Entrou. Depois da barulheira do baile, l dentro parecia quieto como uma ilha deserta.
Viu Jamie fechar o palet, escondendo o decote. Que palet de sorte, pensou. Acariciar aquela pele, tocar aqueles seios, que o fascinaram durante toda a noite...
Stone ligou o motor, ligou o aquecedor, saiu do estacionamento.
Jamie olhou-o fixamente.
	O que fez nestes trs anos?
Senti saudade, Stone pensou.
	Trabalhei  respondeu.  Primeiro naquela emissora de Seattle, depois Denver, depois Baltimore. Montei minha empresa no ano passado, mas estou sempre viajando. Uma cidade diferente a cada dois meses.
De relance, Stone olhou para o perfil de Jamie. Sempre gostara desse ngulo. O nariz arrebitado, a curva dos clios, o contorno do queixo. No era um perfil clssico, mas era nico, bonito como um camafeu. Curiosamente, nunca lhe contara.
Nunca lhe contara muitas coisas. Claro que ela tambm no lhe contara algumas, Stone pensou, lembrando da conversa com a av.
Stone conhecera a rejeio desde cedo, e aprendera a evit-la. Jamie o rejeitara uma vez. Por que agora seria diferente?
Voltou a olhar para a frente, engoliu seco, tentando parecer indiferente.
	E voc? Viajou?
	No. Estive ocupada, criando razes.
Outra vez aquela mesma censura velada na voz, aquele mesmo tom defensivo. Stone sentiu a mesma dor de antigamente. Quisera tanto que ela se orgulhasse dele, mas ela no via mrito algum no seu trabalho, s reclamava de sua dedicao  carreira. Por que no entendera que ele precisava faz-la deslanchar? Devia ficar feliz por ele ter iniciativa, ambio, sentir orgulho de suas conquistas. Ser que preferiria que ele fosse um intil como o pai?
Os dedos doam. Stone percebeu que segurava a direo com tal fora que os ns estavam brancos. Correu os dedos pelo cabelo, tentando banir da mente tais recordaes.
Tambm nunca contara a Jamie a verdade sobre o pai. Claro que ela sabia que sua famlia sempre estivera longe de ser rica, mas nunca soube das privaes e da vergonha por que ele j passara.
Principalmente porque as origens de Jamie eram bem diferentes. Seu pai era um executivo importante. Ela sempre tivera dinheiro, segurana, sobretudo respeitabilidade.
Stone dobrou a esquina da rua de Jamie. No pretendia manter silncio o tempo todo. Precisava tentar acertar as coisas entre eles, tentar de alguma forma derrubar a barreira que ambos construram.
Parou em frente  casa. Olhou para Jamie.
	E a casa, quando comprou?
O rosto de Jamie se iluminou. "Encontrei o assunto certo", Stone pensou, satisfeito.
	Ano passado, num leilo. Uma ninharia. Tem muita coisa para fazer, mas me apaixonei por ela. Adoro consert-la.
Jamie sempre quisera uma casa. Stone ainda se lembrava da pasta em que ela guardava fotos e recortes de revistas. Seu arquivo de sonhos, costumava dizer, cheio de ideias de decorao.
	Parece de brinquedo  ele comentou.
	Tambm acho. Sempre gostei de tijolo  vista.
	O jardim foi voc que fez?
	Foi  Jamie respondeu, orgulhosa.  As rvores j estavam a, mas plantei as flores. Tambm vou fazer uma horta no quintal.
	Que timo! E por dentro?
	Ainda est em obras. J troquei o piso de madeira. Agora estou trabalhando na pintura.
	Posso ver?
Jamie hesitou. Depois sorriu.
	Venha. Vou lhe mostrar tudo.
Stone sorria ao contornar o carro para abrir a porta para ela. Falar sobre a casa fora mesmo boa ideia.
Enquanto Jamie remexia a bolsa procurando a chave, Stone observava sua nuca, morrendo de vontade de beij-la. Inclinou a cabea para sentir seu perfume, uma fragrncia suave, inebriante. Fechou os olhos, esticou o pescoo, inalou com prazer. Quando voltou a abrir os olhos, Jamie estava no vo da porta, observando, curiosa.
Percebendo sua atitude ridcula, Stone fingiu espirrar.
	Sade!  Jamie exclamou, preocupada.  Voc no devia ter tirado o palet. Vai ficar resfriado.
Jamie cruzou a sala. Acendeu a luz. Voltou-se para ele, ansiosa. Stone lembrou que estava l com o nico propsito de ver a casa. Desviando os olhos dela, observou a sala.
Parecia coisa de revista, mas sem exageros, sem formalismos. Embora os adornos no combinassem entre si, o efeito geral era fantstico. Cores quentes, o mesmo clima rstico de uma casa de campo.
	Est lindo! Voc fez tudo isso com o salrio de produtora?
	Tentei compensar a falta de dinheiro com criatividade. As duas poltronas comprei de segunda mo. Eu mesma troquei a forrao.
E o sof? Era o mesmo que ela comprara quando estavam casados, agora com outro revestimento? Discutiram muito por causa dele, e rev-lo era como reabrir uma ferida antiga.
Stone era contra comprar moblia, muito menos uma casa. Preferia estar sempre pronto para mudar, galgar o degrau seguinte da carreira to logo surgisse a oportunidade. Alugar um apartamento mobiliado era mais fcil que empacotar tudo, fazer mudana, desempacotar tudo de novo.
Mas Jamie queria um lar, razes. Tiveram uma briga horrvel. No por causa do sof, mas das frequentes mudanas e, daquela falta de estabilidade. Ele dizia estar tentando construir um futuro seguro para ambos. Jamie dizia que ele nunca estaria satisfeito, que cargo algum seria o bastante, que estaria sempre vivendo o futuro em vez do presente.
Ela parecia estar conseguindo realizar seus sonhos muito bem sem ele. A sala era bonita, acolhedora.
Stone lembrou-se de seu quarto de hotel, inspido. Detestava a ideia de voltar l aquela noite.
Jamie deixou a bolsa numa mesinha.
	Vou fazer caf.
Stone a seguiu at a minscula cozinha, pintada de verme-Iho-ferrugem, como um velho celeiro. Delicadas gravuras cobriam uma parede. Um galo de cermica montava guarda sobre uma pequena mesa de carvalho. Era acolhedora, domstica. Como seria sentar-se quela mesa de manh e tomar caf com Jamie?
Jamie colocou gua na cafeteira. Pegou no armrio um filtro de papel. Stone foi pegar o p, lembrando que ela sempre o guardava no freezer, para manter fresco, dizia. Viu que ele estava cheio de comida congelada.
Ficou ali, parado, olhando para a pilha de caixinhas, lembrando que cozinhar fora o hobby de ambos quando recm-casados. Costumavam surpreender um ao outro com experincias gastronmicas. Ir ao supermercado juntos era sempre uma aventura. Descobrir um fil perfeito, um tempero raro, uma fruta extica, tudo era sempre motivo de comemorao.
Mas o que acontecera com tanta felicidade?
Acontecera que mudaram para Phoenix, e ele comeara a trabalhar feito louco, Stone lembrou. Mal tinha tempo para dormir, muito menos para comidas ou hobbies.
Ou para Jamie.
Que triste. Um casamento to alegre, to feliz, to cheio de amor... Como foram deix-lo morrer?
Stone entregou o p do caf a Jamie. Pegou uma lasanha congelada.
	Parece que voc no tem cozinhado muito ultimamente...
Pela mgoa visvel no olhar, Stone viu que ela tambm se lembrava.
	No.  Jamie colocou o p na cafeteira.  E voc?
	Tenho um apartamento em Seattle, mas moro em hotis. Estar na sua cozinha  minha maior experincia culinria dos ltimos meses.
Jamie ligou a cafeteira. Tentou sorrir.
	 gente como ns que sustenta a indstria dos congelados. Venha, vou mostrar o resto da casa enquanto o caf fica pronto.
Stone a seguiu pelo corredor, olhando todos os cmodos. O quarto de hspedes, que ela usava para trabalhar, o banheiro...
	E este  o meu quarto... Jamie acendeu a luz. Entraram.
Stone mal podia respirar.
O quarto tinha a cara dela. Rosado, clido, delicado. Sobre a cama antiga, havia uma colcha de retalhos. Jamie sempre gostara de trabalhos com retalhos. Havia outra, dobrada aos ps da cama, certamente para esquentar seus ps  noite. Na cadeira de balano tambm havia almofadas de retalhos.
Mas o que tocou o corao de Stone como um punhal em brasa foi ver sobre a cmoda uma caixinha de msica. Foi at l. Levantou a tampa. Um casal de noivos comeou a girar num pedestal, sob os acordes familiares de We've only just begun...
	O que aconteceu com a gente?  Stone falava baixo, a voz rouca.
Jamie fitou-o nos olhos, e sentiu o corao se quebrando em mil pedaos. De novo. Trs anos tentando junt-los, tentando remendar a vida, iam por gua abaixo por causa de uma simples pergunta. Trs anos fingindo que estava tudo bem, de repente foram reduzidos a nada.
Mas ele jamais saberia. Jamie levantou o queixo.
	Voc foi embora, foi isso o que aconteceu.
	Eu queria que voc viesse comigo.
	E eu estava cansada de no ter residncia fixa! E tinha conseguido subveno para produzir aquele documentrio.
	Eu no sabia quando aceitei o emprego.
	O problema era justamente esse. Eu era to pouco importante na sua vida que voc aceitou o emprego sem me consultar. Achou que eu arrumaria a mala e mudaria com voc, como sempre.
	Voc sempre foi importante na minha vida, Jamie. Eu  queria falar com voc, mas tinha de decidir logo, e voc estava viajando, produzindo aquele programa sobre acampamentos infantis. O emprego era bom demais para perder e achei que voc confiava na minha deciso. S estava tentando garantir nosso futuro, Jamie. Quando se casou comigo, voc sabia que haveria algumas mudanas.
	Mas no sabia que a cada mudana nos veramos cada vez menos. Voc trabalhava tanto que eu j nem sabia se morvamos os dois na mesma cidade.
Stone respirou fundo.
	Era temporrio, Jamie. Eu no pretendia manter aquele esquema de trabalho para sempre.
Jamie jogou a cabea para trs. Encarou-o ferozmente. A msica parou. Um silncio pesado pairava no ar. Stone acariciou seu rosto. Quando falou, sua voz no passava de um sussurro.
	Desculpe, Jamie. No sabia quanto estava magoando voc.
Ela no soube o que dizer. A ltima coisa que esperava ouvir eram desculpas. Stone sempre tinha um bom motivo, uma rplica para qualquer argumento.
	Eu disse que nosso casamento estaria acabado se voc fosse. E voc foi assim mesmo.
	Foi um ultimato. Voc estava tentando me manipular.
Desafiavam-se com os olhos, enchendo o ambiente de eletricidade.
O pior era que ele estava certo. Tentando faz-lo desistir do emprego, ela blefara. Devia saber que no daria certo. O tiro no apenas sara pela culatra, mas atingira o atirador.
	Nunca achei que voc fosse embora  ela murmurou.
	Nunca achei que voc ficasse  ele respondeu.
O silncio ecoava ao redor.
	Stone...  Jamie finalmente balbuciou.
	Jam...  O beijo veio antes do fim do nome. Um beijo ansioso, possessivo. Stone a abraava fortemente.
Era como voltar para casa. No havia no mundo coisa melhor do que estar nos braos dele, ser beijada por ele, sentir o corpo dele...
Oh, que saudade! Como ela sentira falta de Stone.
O zper do vestido desceu. As alas, logo depois. O vestido amontoou no cho.
	Jamie, voc  to linda...  disse, voz rouca.
Stone abriu o fecho do suti de renda preta. Apoderou-se de um dos seios e comeou a beij-lo.
Jamie gemeu. Enterrou os dedos nos cabelos dele.
Primeiro um, depois o outro, Stone mordiscava seus mamilos, escuros, endurecidos. Parou. Voltou a beijar seu pescoo, depois a boca. Gemendo, Jamie comprimia os quadris contra o corpo dele, enquanto ele acariciava suas ndegas.
O desejo dele instigava o dela. Jamie sentia o corpo em brasa, equilibrando-se nos saltos altos.
Stone a pegou no colo, levou-a para a cama.
Jamie mal sentia o colcho sob o corpo. Tudo o que conseguia sentir era Stone sobre ela, beijando seus seios outra vez. O desejo era cada vez mais insuportvel. Oh, como ela queria aquele homem! O homem que tanto amava... com quem se casara...
E de quem se divorciara.
Que estava fazendo? Passara os ltimos trs anos tentando esquecer o ex-marido,  agora estava ali, prestes a fazer amor com ele?! Pensar naquilo foi como um balde de gua fria.
	Stone  murmurou.  Stone, no podemos.
Stone, relutantemente, ergueu a cabea.
	Se voc precisa d proteo, posso ir at a farmcia e...
	No, no  isso...  que... eu... Stone, precisamos conversar. Stone... est me ouvindo?
Stone sentou na cama. Suspirou ruidosamente. Correu os dedos pelos cabelos.
	Sim, Jamie. Estou ouvindo...
Jamie abraou um travesseiro. Afastou-se. Recostou na cabeceira da cama.
	Fazer amor no vai resolver nada.
Stone saiu da cama, ajeitando a cala.
	Tem uma coisa que fazer amor resolveria muito bem.
	Voc sabe o que quero dizer, Stone. No posso simplesmente ir para a cama com voc.
	 isso que acha que estamos fazendo?
	No sei o que estamos fazendo. Tudo est acontecendo muito rpido.  Jamie pegou outro travesseiro.  Daqui a dois meses, voc vai embora. E sua vida agora  ainda mais nmade do que quando estvamos casados.
	Jamie, querida... no vou levar esta vida para sempre.
O silncio que se seguiu dizia tudo o que ela queria saber.
	Nada mudou, Stone. Estamos no mesmo ponto onde estvamos quando voc foi embora e acabou com nosso casamento.
	No, no estamos!  ele protestou.
	Alguma coisa mudou?
Stone a fitava, observando seus cabelos despenteados, seus lbios inchados, seus olhos enormes.
	Eu, Jamie.- Eu mudei  respondeu.
Foi quando Stone sentiu que realmente mudara. No porque estivesse mais velho, mais experiente, mas porque agora sabia o que era viver sem ela. Jamie deixara em seu peito um vazio do exato tamanho dela, que s ela poderia preencher.
Ele a queria de volta em sua vida. No sabia por quanto tempo, nem de que forma, aquilo agora no importava.
Ele a queria de volta. Queria fazer amor com ela at estarem ambos exauridos. Queria abra-la enquanto ela dormisse e acordar com ela nos braos, para fazerem amor de novo de manh.
Mas, a julgar pela expresso dela, cautelosa, no seria naquela noite.
Stone estendeu a mo para toc-la, mas se conteve. Se voltasse a toc-la, ir embora seria mais difcil. Respirou fundo.
	E tarde. Voc precisa acordar cedo. Vou deix-la dormir.  Era hora de ir, mas Stone no queria  no sem conseguir uma pequena concesso, um fio de esperana.  Gostaria de lev-la para jantar sexta-feira.
	Stone, no acho uma boa ideia a gente ser ver fora do trabalho.
	Ora, Jamie  Stone sorriu , a indstria de congelados no vai falir por causa de uma noite. Voc no est com medo, est?
Era um golpe escandalosamente baixo. Ele sabia que ela morreria antes de admitir estar com medo de qualquer coisa.
	Claro que no  Jamie respondeu.
	Ento est combinado.  Stone voltou a sorrir.
- Mas no posso  Jamie protestou.  Me inscrevi num curso de jardinagem. Comea sexta  noite e dura todo o fim de semana.
Stone no estava disposto a deix-la escapar to facilmente.
	Ento na segunda-feira.  O olhar vagava pelo corpo dela. Parou nas coxas. Stone respirou fundo.

CAPITULO VI

Jamie cruzou as mos sobre a mesa, olhar perdido no monitor, alheia ao comercial na tela. Relembrava o encontro com Stone na noite anterior.
De manh, um pouco mais lcida, custava a acreditar que quase se deixara levar. Aqueles lbios to doces, aquele abrao to gostoso, aquele corpo to masculino, viril, pronto para...
Mas fora o clima entre eles que quase a levara  runa. O fim do casamento teria sido para ele to doloroso quanto para ela? Nunca parecera. Stone aceitara tudo to passivamente. Quando ela dera o ultimato, nem discutira, nada pedira. Simplesmente fora embora.
Na noite passada, porm, ela vira nele algo que nunca vira antes. O olhar triste, sombrio. A voz embargada pela dor ao lhe perguntar o que acontecera com o casamento. At sabia o exato dia da separao. No, ele no parecia ter sado do casamento com tanta facilidade.
Jamie passara a noite em claro, avaliando as possibilidades, o corao palpitando, viajando entre a alegria e o desespero. Quase enlouquecera.
A voz do diretor irrompeu no intercomunicador:
 O intervalo est no fim. Ateno... dez, nove...
Jamie olhou a pgina  sua frente. No costumava se distrair durante uma transmisso. Mas tambm no costumava passar noites em claro, perturbada, confusa.
Se no quisesse correr o risco de gaguejar no ar, era melhor prestar ateno no trabalho. Respirou fundo, concentrada na notcia seguinte. Quando a luz da cmera piscou, sorriu.
Vinte minutos depois, tirou o microfone da lapela e respirou aliviada. Continuava detestando ir para o ar, mas o pavor j no era to grande. Talvez contagiada pela confiana de Stone, ela j comeava a acreditar ser capaz de fazer o telejornal sem gaguejar.
Harold desligou os refletores. Quando os olhos se adaptaram  penumbra, Jamie viu Stone encostado na parede. Lembrou a noite anterior. A pulsao subiu. Nada mudou, repetia para si mesma, mas o corao teimava em bater descompassado. Levantou ao v-lo se aproximar.
	Bom dia  Stone cumprimentou.  Dormiu bem?
	Muito bem  Jamie mentiu.  E voc?	
	No preguei olho a noite inteira.	
O tom sexy arrepiava. Jamie se aprumou.
	Acho que a gente devia esquecer o que houve ontem.  melhor pensar no trabalho.
	Seria impossvel esquecer, Jamie... mas podemos falar de trabalho se quiser.  Stone sorriu, observando seu tailleur vermelho.  Voc estava tima hoje, mas o que houve com a camiseta e a maria-chiquinha?	
Jamie ergueu os ombros. Se tinha de aparecer para o pblico, ao menos o faria com alguma dignidade.
	No que tenha havido reclamaes  Stone prosseguiu.  Voc  o novo camaleo da moda. Pode vestir o que quiser.
	Do que est falando?
	Da imprensa  Stone respondeu, mostrando a seo Estilo de Vida do jornal, onde havia uma foto de Jamie na festa, ao lado de outra, onde ela aparecia de maria-chiquinha. A legenda esclarecia que era foto do telejornal do dia anterior.
Jamie correu os olhos pela matria... A nova ncora do telejornal da KZZ  assunto em todo o Estado. Alm, de transmitir as notcias com emoo e empatia sem precedentes, no limita o vesturio ao padro executivo. Sua aparncia informal, no-ortodoxa, tira o ncora do pedestal para coloc-lo na sala de estar, junto dos telespectadores.
	Essa no  resmungou. E leu outro trecho, mais adiante...
No entanto, sua aparncia fascinante no baile da Academia de Artes, ontem a noite, deixou claro que no tem medo algum de exibir seu lado feminino e sexy. A srta. Erickson est se revelando um verdadeiro camaleo da moda, uma corajosa pioneira audaciosa o bastante para ser um exemplo genuno da versa tilidade da mulher contempornea.
Jamie olhou para Stone, fez uma careta.
	Quanta bobagem...
	Gostei principalmente da ltima linha  Stone comentou.
	Mal podemos esperar para ver o que ela vai fazer a seguir  Jamie leu em voz alta.
Stone sorriu.
	Eu tambm mal posso esperar, Jamie. Voc conseguiu mais publicidade para esta emissora em dois dias do que eu em seis meses para outras. Metade do Estado sintoniza a KZZ s para ver o que voc est vestindo.
	Oh, que timo!  Jamie ironizou.
	Do ponto de vista da emissora,  mesmo. Voc devia estar feliz com a ideia do sr. Milton. No consigo entender por que essa promoo a incomoda tanto.
Jamie mordeu o lbio. Queria dizer tudo, de uma vez por todas. Mas sua poderosa autodefesa no permitia, no deixava ningum, nem Stone, chegar muito perto.
Aquela muralha defensiva existia desde a infncia, e ficava mais resistente  medida que o pai a depreciava. Jamie crescera se achando intil, inaceitvel. O pai a fizera crer que, para alcanar o sucesso, era preciso mostrar fora, confiana, esconder qualquer fraqueza.
Embora intelectualmente ela j no concordasse com o pai, emocionalmente a coisa era diferente. Para complicar tudo ainda mais, Stone lhe dissera, no incio do namoro, que sua fora e independncia eram o que mais o atraa nela. Por isso, Jamie nunca baixara a guarda completamente, nem durante o casamento, e obviamente no o faria agora. A ltima coisa que queria era parecer a Stone mais vulnervel do que j estava.
Jamie endireitou as costas, levantou a cabea.
	Adoro a produo. Qualquer um pode ler as notcias. Gosto de opinar sobre quais vo ser veiculadas, como vo ser redigidas. Gosto de saber que resolvi problemas de ltima hora, que ajudei a pr no ar mais um telejornal. Gosto de sentir que esta ou aquela notcia vai fazer diferena na vida das pessoas.
	Compreendo  Stone concordou.  Mas voc continua influenciando as pessoas, Jamie. A forma como l as notcias faz o pblico se interessar pelo jornal. Alm disso, embora no saiba, est ajudando seus colegas de trabalho, atraindo uma multido de telespectadores dos quais a emissora precisa. A KZZ est para ser vendida. Se a audincia no melhorar, quem comprar vai promover demisses, contratar outra equipe. Jamie estava atnita.
	Eu no imaginava que o emprego de algum dependesse de mim. Por que no me disse antes?
	No queria pression-la ainda mais.  Stone deu de ombros.  Alm disso, se nossos planos derem certo, isso nunca vai acontecer.
Era preciso dizer algo para acabar com aquela tenso.
	Por falar em influenciar pessoas... j leu meu memorando sobre a srie das crianas?
	J. Gostei das ideias sobre o formato. Qual  o prximo passo?
	Vou encontrar a assistente social do orfanato segunda  tarde.
	Vou com voc. Podemos conversar sobre a srie no caminho.  Stone olhou o relgio do estdio.  Tenho uma reunio com o editor de planto daqui a dois minutos. Se quiser esperar, depois levo voc para almoar.
O convite a pegou desprevenida, como tudo o que j acontecera entre eles. Stone sorriu, os olhos escuros, brilhantes, a expresso sugestiva, a mesma que ele costumava reservar s para ela. E Jamie percebeu que o convite ia alm de um simples almoo.
	Vou almoar com a vov  finalmente respondeu.
Stone sorriu. L estava a covinha outra vez. E o brilho nos olhos dizia que ela escapara desta vez, mas o assunto ainda no estava resolvido.
	Tudo bem, Jamie, mas no esquea nosso jantar na segunda. E nem pense em inventar uma desculpa, porque no vou aceitar.
Ainda sorrindo, Stone saiu do estdio.
No era justo que ele ainda pudesse faz-la sentir-se assim, depois de ter despedaado seu corao.
A concluso a que ela chegara de manh estava correta, pelo menos no que dizia respeito  atrao existente entre eles.
Nada mudara. Nada mesmo.
Voc parece nas nuvens, querida  a av comentou quando o garom saiu, deixando o cardpio.  Foi a noite com Stone?
Jamie bebeu um gole de gua, nervosa. Olhou para Flos-sie. Aquela indiferena estudada indicava que ela estava morrendo de curiosidade. Ento fora por isso que a convidara para almoar...
	Como?  Jamie fingiu no entender.
A av desdobrou o guardanapo de linho sobre o colo.
	Bem... levei Lulu para passear ontem  noite... o carro dele estava em frente  sua casa... j era tarde... e a nica luz acesa era a do seu quarto.
Jamie quase engasgou. Pousou o copo na mesa, tossiu, pegou o copo de novo, bebeu tudo de uma vez. Como se a gua gelada pudesse diminuir o calor do rosto.
Os olhos da av brilhavam, e Jamie logo viu que no conseguiria fugir do assunto. Deixando o copo na mesa, encarou a av.
	Que coincidncia, hein, vov? Voc e Lulu vagando pelas ruas no meio da noite...
	No posso controlar as funes renais da Lulu, querida  a av respondeu.  Ela precisa sair de vez em quando...
	Confesse, vov... voc estava me espionando.
Flossie pegou o cardpio. Abriu num gesto teatral.
	Se no quer falar sobre isso, tudo bem.
	No quero.
Em menos de dez segundos, a av baixou o cardpio.  Mas, se estiver voltando para Stone, quero que saiba que tem todo o meu apoio.
	No estamos voltando.
Sumiu o sorriso, sumiu o brilho nos olhos. A decepo da av era evidente.
	Mas por que no, querida? Dizem que o amor  sempre melhor da segunda vez.
Jamie revirou os olhos.
	S nas novelas, vov, no na vida real. O motivo da separao no mudou. Alis, piorou. Stone agora  consultor, vai precisar se dedicar ainda mais ao trabalho, sua vida vai ser ainda mais nmade. No quero viver desse jeito.
A av franziu o cenho, olhar severo.
	Prefere continuar vivendo sem ele?
Jamie sentiu uma pontada no corao e se aprumou na cadeira. Olhou as pessoas ao redor.
	No quero falar sobre isso, vov. Podemos mudar de assunto?
 S quero a sua felicidade, querida.  Flossie parecia apreensiva.  Mas, se quer falar de outra coisa, tudo bem.  Tomou um gole de gua.  Como vo as coisas entre voc e Stone no trabalho?
Mesmo irritada, Jamie no pode deixar de rir. A av no dava trgua.

CAPITULO VII

Segunda  tarde, correndo pelos corredores da KZZ, Jamie olhou o relgio de pulso. Tinha menos de uma hora para responder uma pilha de correspondncia e ir ao orfanato.
Stone ia junto. S de pensar, o corao batia mais forte. E depois,  noite, ia lev-la para jantar.
Oh, por que ela aceitara jantar com ele se sabia o mal que isso faria para seu equilbrio emocional? Cada vez que o via, ficava mais irritada, mais confusa.
Mesmo a distncia, ele conseguia bagunar a vida dela. O fim de semana inteiro Jamie passara pensando nele, apesar de todos os esforos para se concentrar no curso de jardinagem. Precisava ficar longe dele, ou no sobreviveria a sua estada na emissora.
Mais exatamente, no sobreviveria a sua partida.
Melhor no pensar naquilo, Jamie decidiu. Melhor se concentrar apenas na srie, sem nenhum envolvimento pessoal, evitar a qualquer custo tudo o que despertasse a atrao entre eles. Dali em diante, quando encontrasse Stone, seu comportamento seria um modelo de profissionalismo.
Absorta em tais pensamentos, casualmente encontrou Todd. Sorriu, tentando disfarar o desprazer de rev-lo.
 Bom dia, Todd.
Todd no respondeu. Apenas olhava. Olhar hostil.
Jamie tinha uma ideia. Pensara em falar com Stone antes de mencion-la, mas o olhar rancoroso de Todd antecipou a conversa.
	Todd, sei que lhe deram um trabalho chato, e voc no est gostando. Mas estou trabalhando numa srie que pode lev-lo de volta  frente das cmeras.
	E mesmo?  Tod ergueu as sobrancelhas, ctico.
	Pois   Jamie prosseguiu, animada.  Vamos fazer uma srie semanal sobre adoo de crianas e precisamos de um reprter, algum carismtico, conhecido. Achei que seria uma boa forma de voc voltar ao vdeo.
	Bem, claro...  Todd continuava desconfiado.  Mas por que acha que me dariam o lugar?
	Estou produzindo a srie. Minha opinio sobre o reprter deve ter alguma influncia. Se estiver interessado, indico seu nome.
	Estou.
Jamie sorriu.
	Otimo. Stone e eu estamos finalizando os detalhes. Voc deve ter uma resposta no incio da prxima semana.  Jamie se virou e saiu, poupando-lhe o trabalho de agradecer ou se desculpar, o que no era mesmo o forte dele.
	Pronta?
Uma hora depois, Jamie tirou os olhos da correspondncia e viu Stone em frente  mesa. O corao acelerou. Jamie desviou o olhar, lembrando o que prometera a si mesma: manter o relacionamento deles em nvel estritamente profissional. Mas o corao insistia em bater de forma nada profissional quando ela pegou a bolsa e saram da redao.
	Voc  o assunto do momento  Stone disse, abrindo a porta para ela.  O sr. Milton est exultante com sua sbita popularidade.
Jamie fez uma careta. Ultimamente, passava a maior parte do tempo lidando com as consequncias da fama... cartas, cartes, telefonemas...
	Podemos mudar de assunto? Falar sobre as crianas?
	Claro.  Stone abriu a porta do carro para ela, deu a volta, entrou.  J escolheu o nome da srie?
	Tinha pensado em Um Lar para Mim...
	Soa bem... tem grande apelo emocional  Stone respondeu enquanto dirigia, pensativo.
Jamie gostou de ouvir aquilo, pois na verdade no sabia o que Stone realmente achava de suas ideias. Mais segura, abriu a agenda.
	Como eu disse no memorando, acho que devemos mostrar uma criana diferente a cada semana.
	Que tipo de cenrio voc tem em mente?
	Depende dos interesses de cada criana. Tenho uma lista de locaes possveis: brincando num parque, andando a cavalo, jogando futebol, empinando pipa...
	Vai usar locuo?  Stone perguntou.
	Em parte, sobre material gravado. Mas tambm vamos usar som natural. A chave de cada histria, a assinatura da srie, vai ser uma tomada da criana falando sobre seus sonhos, esperanas...
Stone desviou o olhar do trfego. Olhou para ela. Sorriu.
	Gostei. Parece que voc pensou em tudo  disse.  Voc vai fazer sucesso, Jamie.
	Obrigada.
O elogio foi uma agradvel surpresa. Mas ela no devia se importar tanto com a opinio dele.
	Stone, sobre hoje  noite...
Stone a olhou de relance.
	Estou ansioso. Aonde voc gostaria de ir?
	Estive pensando... acho que no  uma boa ideia a gente se ver fora do trabalho.
	J falamos sobre isso, Jamie. Detesto comer sozinho. E, a julgar pelo seu freezer, voc tambm merece uma refeio decente. Que tal comida mexicana?
Aquele sorriso era contagiante. E Jamie sorriu tambm. A ideia de uma noite com ele era mesmo irresistvel.
	Isso  jogo sujo. Voc sabe que adoro comida mexicana.
	Por que eu deveria jogar limpo? Lembre-se do velho ditado sobre o amor e a guerra...
Stone cruzou a entrada de tijolos vermelhos do orfanato.
	Quem gosta de brincar?  Jamie perguntou.
	Eeeeeu...  As oito crianas sentadas ao redor dela no gramado levantaram as mos.
Stone, no muito longe, recostou no muro e sorriu. No comeo da conversa, as crianas estavam desconfiadas, retradas, mas Jamie logo conseguiu deix-las  vontade.
Era a primeira vez que ele a via trabalhando como produtora. Embora j houvessem trabalhado antes na mesma emissora, nunca trabalharam no mesmo departamento. Ela, sempre na programao infantil. Ele, no jornalismo.
Jamie esbanjava competncia. Stone estava impressionado com a maneira como ela esclarecera cada detalhe do programa durante o encontro com a sra. Mathis, a assistente social responsvel pelo projeto. Jamie previra tudo, at aspectos em que ele mesmo nunca teria pensado, como evitar que as crianas ficassem decepcionadas se no fossem adotadas, que no se sentissem relegadas a segundo plano aquelas que no participassem do programa, ou como mostrar suas necessidades especiais na tev sem deix-las embaraadas.
O interesse de Jamie pelas crianas era mesmo comovente. Stone sentia um n peito, cada vez mais apertado  medida que a observava. Talvez se sentisse culpado. Enquanto ela se preocupava com as necessidades dos outros, ele tinha apenas uma preocupao egosta: ser que um dia ela voltaria a se preocupar com ele?
	Ela sabe mesmo lidar com crianas  a sra. Mathis comentou.
	Tambm acho  Stone respondeu, vendo os rostinhos alegres dos meninos e meninas que a rodeavam.
	Peter, do que voc gosta de brincar?  Jamie perguntou.
	Power Rangers!  O garoto loirinho de aparelho na perna levantou, simulando alguns golpes de artes marciais.
Apesar do n no peito, Stone sorria. Sempre imaginara Jamie como a me de seus filhos. Sabia que ela seria uma me maravilhosa, que dedicaria aos filhos todo o cuidado e ternura que ele prprio no tivera quando criana. S trabalhara tanto enquanto foram casados para poder oferecer segurana financeira a Jamie e  famlia que um dia teriam juntos.
Tentara lhe dizer isso tantas vezes, mas ela nunca entendera.
Stone cerrou os punhos. Sempre pretendera que a carreira fosse um meio, no um fim. Por que tudo dera to errado?
Talvez ela lhe desse uma segunda chance. Ver aquela caixinha de msica no quarto dela o fizera descobrir no peito algo que julgava perdido, e a esperana renascera das cinzas em seu corao. At ento, ele no sabia o que queria, no estava seguro \      dos prprios sentimentos. Mas enquanto os bonequinhos giravam, e a melodia pairava no ar, vira nos olhos de Jamie tudo o que sempre quisera na vida.
Jamie tambm sentia algo por ele, era evidente. Ou no teria correspondido a seus beijos to apaixonadamente.
No, ele no podia desistir.
Ele a queria de volta em sua vida.
Uma campainha soou. As outras crianas no ptio fizeram fila para voltar ao prdio. Stone viu Jamie levantar, acenando para a turminha que se dispersava a seu redor. E se abaixar para falar com um menino de cabelos encaracolados que ficara para trs. Jamie abraou o garoto e o seguiu com o olhar at v-lo alcanar os outros. S ento foi para onde estavam Stone e a assistente social.
	Que crianas maravilhosas  disse  sra. Mathis.  Gostaria que todas pudessem participar do programa.
A mulher sorriu.
	A nica que me preocupa  o garoto com quem voc falava. Michael  encantador, mas temo que no fique bem na televiso, j que voc prefere que as crianas falem. Se fica excitado ou nervoso, no consegue pronunciar uma palavra.
	Eu percebi.  Os dedos de Jamie, nervosos, brincavam com a ala da bolsa.  Mas podemos resolver isso, gravar a cena e sobrepor a locuo.
	Locuo?
	, mostrar a imagem enquanto o reprter fala sobre ela. Assim Michael no ter de falar.
	Ele  muito tmido  a sra. Mathis comentou.  Mas, se ele concordar, tudo bem.
	Otimo.  Jamie sorriu.  Detestaria que esse problema o impedisse de ter a mesma oportunidade que as outras crianas.  Depois de alguns minutos em silncio, perguntou:  Ele est fazendo tratamento? Conheo um pouco sobre deficincias da fala, e terapia po-pode ajudar ba-ba-bas...  Parou, respirou fundo  ajudar muito.
Surpreso, Stone viu Jamie corar. Era a primeira vez que a via gaguejar. Mas nunca conversaram sobre isso, ela sempre conseguira evitar o assunto. E lembrou que Flossie dissera que o problema s recorria se ela falasse a respeito. Segurou-lhe o brao, tomado de uma sbita necessidade de proteg-la.
	Uma de nossas conselheiras est tentando trabalhar com ele, mas no  terapeuta formada  a sra. Mathis respondeu.  O dinheiro anda curto por aqui.
	Talvez minha empresa de consultoria possa ajudar  Stone interrompeu.  Por que no rene alguns oramentos e me diz quanto precisa?
	Com todo o prazer.  A sra. Mathis abriu um grande sorriso.  Obrigada, sr. Johnson.
	Muito gentil da sua parte oferecer ajuda para a terapia de Michael  Jamie disse, quando j voltavam para a emissora.
Stone olhou rapidamente para Jamie e para a frente outra vez, procurando uma forma de abordar um assunto que sabia ser penoso para ela.
	Nunca tinha visto voc gaguejar  finalmente disse. Ja mie olhava para o outro lado.
Stone esperava um comentrio, mas Jamie no falou nada.
	Nunca soube como conseguiu superar o problema. Alis, se aquela sua amiga no o tivesse mencionado, eu nunca saberia dele.
	Vou considerar isso um elogio.  Jamie tentava parecer informal, fugir do assunto. Mas ele no deixaria.
Era preciso faz-la falar. Ele devia ter insistido naquilo trs anos antes. O assunto era difcil, mas o instinto lhe dizia que, para tentar reconstruir o relacionamento, ele tinha de ganhar sua confiana. Se contasse seus segredos, talvez Jamie tambm abrisse o corao.
	 srio, Jamie, eu gostaria de saber, para compreend-la melhor. De certa forma, voc sempre me manteve a distncia, impediu que eu me aproximasse, mesmo quando ramos casados.
	 mesmo?  Jamie se voltou, olhar incrdulo.  Como voc poderia se aproximar se nunca estava por perto?
Stone no podia se deixar envolver naquela velha discusso.
	Que tipo de terapia Michael precisa?
Jamie voltou a olhar para fora do carro.
	Melhor no falar sobre isso.
	Por que no, Jamie?
	N-n-no quero gaguejar perto de voc  Jamie resmungou.
Era o que Stone temia: Ela no confiava nele, considerava-o um estranho. Ele sabia como era correr as mos pelo seu corpo nu, sabia como ela gritava no momento do orgasmo, sabia a temperatura que ela gostava na gua do banho. Por que ento ela o exclura desse aspecto de sua vida se eram ntimos em tantos outros?
Era preciso romper a couraa. Se queria t-la de volta, precisava ganhar sua confiana, abrir caminho at seu corao.
	Por que isso seria to terrvel?
	N-n-no quero que voc me veja assim.  Jamie olhava para as prprias mos.
	Assim como, Jamie?
Jamie respirou fundo. Silncio. Tudo o que se ouvia era o rudo dos pneus no pavimento. Stone j desistira da resposta quando ela finalmente falou:
	De-de-defeituosa.
	Defeituosa? Era o que achava que eu pensaria?  Stone freou bruscamente; dobrou a esquina, pegou uma transversal. Entrou no estacionamento de um edifcio comercial. Parou. Desligou o motor.
	Jamie...  Segurou seus braos, olhou bem dentro de seus olhos.  De onde tirou essa ideia?
Jamie deu de ombros, olhando para as mos no colo, torcendo os dedos, nervosa.
	Jamie, voc acha mesmo que sou assim to superficial? Tem ideia do que eu sentia por voc? Do que ainda sinto por voc?
Jamie levantou os olhos, midos. Expressavam algo que Stone no sabia definir. Medo? Desejo? Tristeza? Esperana? Tudo aquilo, mas principalmente medo.
	Jamie, fale comigo...
Ela engoliu seco. Desviou o olhar.
Stone segurou seu queixo, obrigando-a a olhar para ele.
	Jamie, no ligo a mnima se voc gagueja. S estou desapontado por no ter tido a coragem de me contar. Sempre a achei corajosa.  Afastou-se, deu de ombros.  Mas talvez estivesse enganado.
Jamie se aprumou. Os olhos fuzilavam. Suspirou, olhando para um ponto distante, muito alm do pra-brisa.
	Meu pai sempre di-dizia que minha gagueira era um de-de-defeito. E eu me sentia como me-me-mercadoria da-da-danificada. Ele di-dizia que, se eu no co-co-conseguia falar sem ga-gaguejar, devia fi-ficar de bo-bo-boca fechada. Quando eu ga-ga-gaguejava, ele me ma-ma-mandava para o quarto.  Jamie parou, respirou fundo.  Tambm di-dizia que, se eu no curasse a ga-ga-gagueira, n-no ia conseguir emprego, nem te-te-teria nenhum amigo e nu-nu-nunca ningum iria me-me-me amar.  Jamie baixou a cabea.
	Mas esse no  o comportamento esperado de um p...  Stone parou antes de concluir. Afinal, falavam do pai de Jamie. Claro que ele no merecia uma filha como ela, mas agora isso j perdera a importncia.
Stone abraou Jamie, trazendo-a mais perto, tanto quanto o cmbio do jipe permitia.
	Jamie, querida, voc no acredita nisso, no ?
	Hoje no, racionalmente. Mas emocionalmente...  Jamie deu de ombros.  Dete-te-testo ga-gaguejar. Faz me sentir fo-fo-fora de controle. E enve-ve-vergonhada.
Se algum devia sentir vergonha era o pai dela, Stone pensou, contendo a raiva. No era daquilo o que Jamie precisava no momento. Precisava de apoio, compreenso, amor.
Precisava dele.
	Jamie, querida, gaguejar no  defeito...  humano  Stone disse acariciando seus braos com a palma das mos.
 Todos tm problemas. S que os de alguns so mais visveis que os dos outros.
Jamie respondeu com um sorriso, hesitante, envergonhada. E Stone achou melhor prosseguir enquanto ela estava disposta a falar.
	Como conseguiu superar o problema?  insistiu. E, como Jamie hesitasse, resolveu dar um empurrozinho.  Quero ter ideia do que Michael precisa.
Jamie tomou flego.
	Traba-ba-balhei com uma terapeuta especializada em tt-tcnicas de relaxamento. Meu ti-tipo de gagueira  causado pela te-tenso nas cordas vocais.  Sorriu, embaraada.  Ge-ge-geralmente tro-pe-peo nas co-co-consoantes. E quando a ga-ga-gagueira comea,  difcil parar.
	E o que voc faz quando isso acontece?
	Pri-primeiro tento substi-ti-tuir a palavra por uma mais f-fcil de pro-pronunciar. Alguns ga-ga-gagos so to bons nisso que ningum percebe a deficincia. Mas uma coisa sempre difcil  pro-pro-pro... dizer meu nome.
Stone olhava, surpreso e admirado ao mesmo tempo. Nunca imaginara a extenso do problema. At a ltima conversa com Flossie, nem sabia que ele persistia. Achava que Jamie estivesse curada, como as crianas se curam de catapora.
Ou talvez nunca tivesse atentado para o fato de que Jamie tinha uma deficincia. Que vergonha.
Precisava recuperar o tempo perdido. Aprender tudo o que pudesse sobre o problema parecia uma boa forma de comear.
	Quais tcnicas de relaxamento voc aprendeu?
	Co-controle do fluxo de ar, reduo da ve-ve-velocidade da fala, relaxamento do corpo, respi-pi-rao profunda... e, principalmente, co-concentrao. Pensar em ga-ga-gaguejar ou se preocupar com isso faz qualquer um gaguejar. Aprendi a me concentrar no assunto em di-discusso, em vez de me preocupar com minha dico. Mas quando o assunto  ga-gagueira, bem...  um di-di-dilema.
	Quanto tempo voc levou para superar o problema?
	Como vo-voc pode ver, no supe-pe-perei totalmente. 
Melhorou muito com um ano de terapia, mas  um processo que dura a vida inteira.
De repente, tudo se explicava... as tentativas de Jamie de sair do ar, sua extraordinria concentrao na mesa de anco-ragem. Stone correu um dedo pelo seu rosto.
	 por isso que no quer estar frente s cmeras?
Jamie olhou nos olhos dele. Desviou o olhar.
	.
Stone baixou a mo, resmungou um palavro.
	Jamie, voc devia ter me contado. Agora est presa quele contrato, e o sr. Milton no vai rescindi-lo de jeito algum.
	Teria feito diferena se eu tivesse contado antes?  Jamie perguntou, cautelosamente.
	Claro que teria!
	Voc no teria me posto no ar?
	Claro que no!  Stone parecia sincero.
Jamie olhou para fora, o corao batendo descompassado. No mesmo? E, se fosse verdade, por que no? Porque se importava com ela ou para atender aos interesses da emissora?
Stone estendeu o brao, acariciou seu ombro delicadamente.
	Jamie, querida, agora  tarde para mudar as coisas. Mas voc nunca teve problemas no ar. Est fazendo um trabalho excelente.
	A no ser por aquela camiseta velha...  Jamie se voltou.
Stone sorriu, brincando com os cabelos dela.
	Voc  fantstica, Jamie  disse baixinho.  Sabia?
A admirao nos olhos dele derretia sua resistncia como sorvete sob o sol. Jamie se sentia leve, aliviada, embriagada... uma exultante sensao de liberdade por ter finalmente compartilhado seu segredo.
Os dedos de Stone brincavam com o tecido de seu casaco.
	No sei se voc percebeu, mas, depois que me contou sobre a gagueira, parou de gaguejar.
	E, consegui...  Jamie sorria, feliz.
	Conseguiu...  Stone chegou mais perto.
A atrao era cada vez maior. No se moviam, apenas olhavam um para o outro, enquanto a temperatura dentro do jipe subia subia. Jamie olhou nos lbios dele, e os seus tremeram.
Aos poucos, a distncia ia ficando menor. E o beijo mais prximo.
Ela devia protestar, o crebro informava. Devia dizer no.
Mas a coerncia evaporara. Aquela sensao de intimidade era to... aconchegante.
Ele estava to perto. Seus olhos pediam permisso. E Jamie, fechando os seus, consentiu. Sentia a boca de Stone roando a sua, aqueles lbios, mornos, firmes, suaves. Foi um beijo terno, delicado, como uma borboleta pousando numa flor. E Jamie sentia que, alm dos lbios, seu corao se abria inteiro para ele.
Stone acariciou seus cabelos, aprofundou o beijo. E Jamie o abraou, deixando-se envolver por aqueles lbios, por aquele corpo, por aquela prazerosa sensao de ter compartilhado uma parte que nunca compartilhara com ningum.
L estavam, alheios ao mundo exterior, quando um veculo freou e estacionou na vaga ao lado. Logo depois, a porta bateu. E Jamie abriu os olhos, sobressaltada.
Uma loira oxigenada de meia-idade, culos gatinho, xeretava pela janela, apertando a bolsa contra o peito.
	Harry, veja! No  a moa do noticirio?
Stone voltou para trs do volante. Ligou o motor.
	Desculpe, estamos de sada  disse  loira.
 Era s o que faltava  Jamie murmurou quando chegavam  rua.
Stone apenas sorriu.
Jamie arriscou um olhar para o perfil de Stone. O simples contato visual fazia seu corao bater descompassado. Com ele, Jamie se sentia viva, vibrante, como se a vida de repente passasse de preto e branco a colorida.

CAPITULO VIII
Hmmm, delicioso...  Jamie murmu-.rou, engolindo o ltimo pedao de sopaipilla, lambendo o mel que sobrara nos dedos. Stone recostou na cadeira, sorriu.
	Senti saudade de ver voc fazer isso. Na verdade, de ver voc fazer muitas coisas.
Jamie desviou o olhar para o restaurante lotado. No podia deix-lo perceber o impacto que aquelas palavras lhe causaram. A noite fora maravilhosa. Ela j no lembrava a ltima vez que tivera companhia to agradvel. Falaram de tudo, como nos velhos tempos.
O clima era de tranquilidade, mas uma atrao velada pairava no ar desde o episdio do estacionamento. Se Stone no precisasse voltar  emissora para os telejornais das cinco e seis horas, s Deus sabe o que teria acontecido.
Stone sorriu. Um sorriso longo, sexy, que no deixava dvidas sobre suas intenes. Jamie corou s de imaginar as possibilidades.
	Voc foi maravilhosa com as crianas hoje, Jamie.  L estava outra vez aquela covinha irresistvel. E Jamie sentia o calor tomando conta do seu corpo.  Vai ficar tima com elas no ar.
	No ar?  Jamie se surpreendeu.  Do que est falando?
	Como do que estou falando?  Stone tambm parecia surpreso.
De repente, Jamie achou que a sopaipilla comeava a pesar no estmago.
	Sou a produtora, no a apresentadora do programa.
Stone apertou-lhe a mo, sob a sua.
	 sim, Jamie.
Jamie j comeava a sentir o velho pavor de sempre.
	Se  uma piada, no estou achando graa, Stone. A srie ser veiculada por no mnimo seis meses, quer eu seja ou no seja mais ncora. Quero sair do ar definitivamente quando aquele contrato acabar. Por que no deixamos Todd apresentar a srie?
	Todd? Sem chance, Jamie. Todd jamais conseguiria interagir com aquelas crianas.
	Posso cuidar disso...  Jamie mordeu o lbio inferior. 	Fazer todo o script para ele.
	Voc teria de fazer bem mais que isso... coreografar todos os gestos dele, alm de mand-lo para uma escola de boas maneiras.
Jamie no gostou de ouvir aquilo. E insistiu.
	Estou acostumada a trabalhar com ele. Posso dar um jeito.
Stone sacudiu a cabea.
	No vai dar, Jamie. O seu carisma frente s cmeras  o grande apelo da srie. Se voc no quiser apresent-la, o sr. Milton vai cancelar o projeto.  Stone parecia preocupado.  Se acha que no vai ter tempo de produzir e apresentar o programa, voc pode designar outro produtor.
	Nem morta!  Jamie parecia um porco-espinho acuado. 	Se acha que vou entregar a srie para outro produtor, sem nenhum interesse em achar um lar para as crianas, voc est muito enganado. Precisamos convencer as pessoas a adot-las. As histrias tm de ser especiais, ter apelo emocional, tm de ser perfeitas, delicadas...
	Sei que voc vai fazer um timo trabalho, Jamie.
	Alm disso  Jamie insistia, inflamada , pretendo continuar como produtora at bem depois de meu contrato acabar.
Stone levantou as mos, simulando rendio.
	No estou dizendo para voc no fazer a produo da srie, Jamie. S estava preocupado com sua carga de trabalho.
	Tem mais alguma coisa nesse contrato que eu deva saber?
	Voc tem uma cpia dele em casa, no tem?  Stone perguntou.
	Claro que tenho.
	timo.  Stone chamou o garom, pediu a conta.  Vamos revis-lo juntos.
O contrato era a ltima coisa em que ele queria pensar, no sof, ao lado dela, uma hora mais tarde. Bem prximos, para poderem ler juntos cada uma das pginas. To prximos que ele podia sentir um doce perfume invadindo suas narinas, o calor do corpo dela. Quando Jamie virou a ltima pgina, a mente de Stone estava perdida em pensamentos erticos.
Jamie, porm, sobrancelhas franzidas, lbios contrados, estava concentrada na leitura. Stone suspirou. Analisaram cada por conseguinte, cada assim sendo, cada acima mencionado. Revisaram o texto clusula por clusula, palavra por palavra, e a tenso de Jamie s aumentava a cada linha. A noite no acabaria como ele planejara.
Deixando o documento de lado, Jamie levantou, passeando em frente  pequena lareira.
	Segundo esse contrato, estou inteiramente nas mos de vocs  disse, furiosa.  O que quero ou no  o que menos importa.
	Quando redigimos o contrato, eu no sabia da sua preocupao com a gagueira, Jamie.  Stone tentava disfarar o desapontamento.  Achei que estava ajudando ao incluir a srie sobre as crianas. O sr. Milton no tem nenhum interesse nessa srie. Com certeza vai cancel-la se voc se recusar a apresent-la. 
	No podemos deix-lo fazer isso! No podemos desapontar as crianas!  Jamie o encarou, mos nos quadris.  Mesmo que no soubesse da minha gagueira, voc devia ter tido mais considerao com a minha vontade. Por que tinha de me obrigar a ir para o ar?
	Jamie, j falamos sobre isto...
	! Vrias vezes! Entre a sua ambio e a minha vontade, sua ambio sempre prevaleceu.
Stone levantou, mos nos bolsos, pensando no que fazer. Detestava v-la furiosa. Sentiu um n no estmago, a mesma antiga sensao de rejeio de quando era criana.
Talvez devesse sair. Como sempre fazia quando brigavam.
Mas no podia fazer aquilo. No, se a queria de volta, tinha de ficar, achar outra sada.
L estava Jamie, braos cruzados, uma muralha intransponvel. Talvez a raiva fosse s defesa. Talvez nem fosse raiva, s medo de deix-lo chegar perto, voltar  vida dela.
Stone coou a cabea. Se queria mesmo compreend-la, talvez devesse se abrir tambm.
O n no estmago apertou um pouco mais. Como podia se abrir com Jamie brava daquele jeito? Sempre reagira  clera isolando-se. Era uma atitude instintiva, tcnica de sobrevivncia aprendida na infncia para se defender do gnio do pai.
Mas isolar-se no fora nada bom durante o casamento. E, com certeza, de nada serviria agora.
Stone se aproximou, tomou flego.
	No sou como seu pai, Jamie. No quero poder, no quero status, no quero ser rico. S quero ter certeza de que nunca mais vou ser pobre como era quando criana.
Ambas as mos apoiadas na lareira, Stone ponderava quanto devia lhe contar. Sua origem era to diferente da dela que talvez a afugentasse.
Claro que Jamie sabia que os pais dele nunca foram ricos, que ele nascera numa cidadezinha no sudeste de Oklahoma, que tivera de trabalhar para custear os estudos. Mas nem imaginava como a vida dele fora difcil. Desde cedo, aprendera a esconder sua origem, socialmente inaceitvel.
Stone se afastou da lareira, voltou-se para Jamie.
	Voc me acha ambicioso demais. De certa forma, tem razo. No quero mais ser despejado nem ficar no escuro porque a eletricidade foi cortada. No quero ter de pr gua na sopa para ela render duas refeies porque a despensa estava vazia e o ms tinha trinta e um dias. Quando tiver uma famlia, no quero meus filhos usando o mesmo jeans encardido todo dia porque no tm outro ou porque falta tempo ou vontade de lavar roupa.
A raiva sumira por completo. Jamie parecia chocada.
	Puxa, Stone... foi assim to ruim?  perguntou.
	Foi pior.  Um msculo pulsava no maxilar de Stone.  A dor nas costas que impedia meu pai de ficar num emprego tinha mais a ver com sua falta de carter que com qualquer doena. Ele s bebia e jogava. Minha me tinha dois, s vezes trs, empregos para manter a casa. E tudo o que ela ganhava, ele perdia numa mesa de pquer ou nas corridas de cavalos.
Stone correu os dedos pelos cabelos.
 Quando eu tinha oito anos meu pai parou de beber, e as coisas comearam a melhorar. Mudamos para um apartamento onde eu tinha um quarto s para mim. Minha me alugou a moblia da casa. Puxa, como fiquei orgulhoso! Era a primeira vez que eu tinha uma cama em vez de um colcho no cho. At convidei uns amigos da escola para irem l em casa. Era a primeira vez...
Stone parou. Hesitou. Prosseguiu.
	Bem, chegamos bem na hora em que retiravam a moblia do meu quarto. Meu pai, completamente bbado, berrava com os carregadores. E, a mim, prometia mundos e fundos. Vivia fazendo promessas que no podia cumprir... roupas, sapatos, brinquedos, Disneylndia. A felicidade estava sempre logo ali,  distncia de uma aposta bem-sucedida...
Stone parou de novo. Pensou um pouco. Prosseguiu.
	Foi quando decidi que, quando crescesse, nunca mais seria pobre. E prometi a mim mesmo nunca faltar com minha palavra.
Jamie se aproximou, olhou nos olhos dele, acariciou-lhe o rosto, mos trmulas, desejando poder voltar no tempo para estar a seu lado quando ele no tinha com quem contar.
O que via era o olhar desiludido de um garoto, que, sabe-se l como, superara todas as dificuldades, estudara, vencera na vida. Tendo apenas como exemplo o que no fazer, alcanara mais sucesso do que a maioria dos homens consegue apenas sonhar.
S no percebera que j conseguira vencer. Continuava tentando, ainda com o mesmo empenho.
Saber o que ela sabia agora fazia tudo muito diferente. O que o movia no era simples ambio pessoal. No amava o trabalho mais que a ela. Temia fracassar.
	Por que nunca me contou?  Jamie murmurou.
Stone deu de ombros.
	Provavelmente pelo mesmo motivo por que voc nunca me contou que gaguejava.
Jamie sentia o peito a ponto de explodir. Foram casados, mas sob vrios aspectos permaneceram estranhos. Com medo de expor suas falhas, confiar um no outro, deixaram o casamento se transformar num poo de segredos e medos secretos.
	Oh, Stone...  Jamie chegou mais perto. Ele envolveu-a num abrao.
Foi um longo abrao, que significava tudo o que ambos no conseguiriam dizer. Arrependimento. Perdo.
Stone a beijou, um beijo faminto, voraz. Depois do beijo, porm, seus olhos mostravam ternura, e algo que Jamie nunca vira antes.
Necessidade. Stone precisava dela.
Durante o casamento, Jamie nunca se sentira como agora. Stone sempre a fizera sentir-se desejada, claro, mas nunca realmente necessria, capaz de mitigar a dor da alma, confortar seu corao.
Jamie olhava naqueles olhos escuros, emudecida pela emoo. Nos lbios inchados, ainda sentia o gosto daquele beijo. O cho parecia se mover, levando-a cada mais perto. To perto como jamais se sentira quando foram casados.
S havia um meio...
 Quero fazer amor com voc  Jamie murmurou, segurando seu rosto, sentindo nas mos a barba crescida durante o dia, procurando sua boca.
Stone gemeu, abraou-a mais forte, beijando seus lbios. Ergueu-a do cho, pegou-a no colo, levou-a pelo corredor.
Empurrando a porta com o p, entrou no quarto. Cuidadosamente, deitou-a sobre a cama.
Deitou sobre ela. Procurou sua boca. Jamie sentiu um arrepio de prazer quando as mos dele deslizaram pelo seu corpo. Lenta e delicadamente, Stone desabotoou sua blusa. Afastando o tecido, correu um dedo por entre seus seios. Abriu o fecho frontal do suti.
Jamie parou de respirar. Com as mos trmulas, desabotoou a camisa dele. Enquanto Stone tirava a camisa, ela afagava aquele peito rijo, msculo, aqueles plos crespos. A pouca luz do corredor deixava ver que o corpo dele continuava exatamente como ela lembrava: forte, magnfico.
Lembranas de outras vezes em que fizeram amor irromperam em sua mente. Stone sempre fora um amante perfeito: antecipava seus desejos antes que ela mesma soubesse o que queria. E Jamie sentia o desejo fluir por todo o corpo. Lentamente, seus dedos exploravam a trilha de plos escuros que comeava na altura do estmago e continuaram descendo... trazendo de volta a mesma intimidade de antes, mas com intensidade ainda maior.
Stone voltou a beij-la, apoderando-se de seus seios, brincando com os mamilos endurecidos. Devagar, bem devagar, depositava beijos ao longo de seu pescoo. Parou na parte alta dos seios, onde a lngua desenhava lnguidos crculos de torturante prazer.
Depois, sugou um dos mamilos, quando Jamie j achava que morreria se ele no o fizesse.
Oh, Deus, quanta saudade ela sentira daquilo. No apenas do prazer fsico mas da proximidade, do compartilhar, do dar e receber. Ansiosa, Jamie procurou a fivela do cinto de Stone.
Foi quando Stone de repente se afastou.
	Doura,  melhor eu ir embora  disse, voz baixa, rouca, respirao ofegante.
	Voc no me quer?  Jamie murmurou.
Se no a queria? Como ela podia pensar tal coisa? Stone a fitava, cabelos espalhados sobre o travesseiro, olhar confuso, magoado. Mas era justamente por desej-la tanto que ele precisava sair dali. O que sentia por ela era mais profundo. Ainda que lhe custasse tanto, no queria fazer nada que pudesse mago-la.
	Doura, no h nada que eu queira mais  Stone respondeu.  Mas no quero que depois se arrependa, que passe a me evitar.  Afastou uma mecha de cabelo de sobre aqueles olhos preocupados.  Se fizermos amor hoje, no vai se arrepender amanh?
Jamie desviou o olhar...
Stone sentou na cama. Comeou a vestir a camisa.
	Tudo bem, Jamie... Afinal, sexo sempre foi um dos nossos maiores problemas.
Jamie voltou a olhar para ele, chocada.
	No era bom para voc?  perguntou baixinho.
Stone sorriu, acariciando aquele rostinho preocupado.
	Era bom demais, doura. Tanto que encobriu o resto. Impediu a intimidade em outros sentidos, que s agora estamos descobrindo.  Stone tinha a voz embargada pela emoo.  S Deus sabe como quero voc, Jamie. Mas no quero s por uma noite. Embora seja difcil,  melhor eu ir embora.

CAPITULO IX

Jamie pegou uma pasta da gaveta e olhou novamente em direo da porta da sala de Stone. Fechada. Ele passara a manh inteira sem sair de l. E Jamie se perguntava o que ele estaria fazendo.
Tir-lo da cabea ra impossvel. Ficava imaginando como estaria vestido, o que comera de manh, o que estaria pensando. Sobretudo em como ficariam as coisas entre eles.
Aborrecida, abriu a pasta, pegou a lista de locaes para a srie sobre as crianas. Tinha mais o que fazer, alm de ficar sonhando com Stone, como uma adolescente. Mas como se concentrar no trabalho, se no conseguia parar de pensar nele e na forma repentina como sara na noite anterior?
Por qu, afinal, ele sara to de repente? Dissera que no a queria apenas por uma noite. Porque a queria de volta para sempre? Ou porque percebera que seria um erro voltarem a se envolver, j que em breve iria embora?
Jamie passara quase a noite inteira pensando, mas no chegara a uma concluso. Stone a avisara de que ela se arrependeria se fizessem amor, mas esquecera de avisar que se arrependeria ainda mais se no fizessem.
Com sua sbita sada, Jamie se sentira desamparada. De sob as cobertas, ouvira seus passos pelo hall, a porta da frente abrindo, depois fechando, depois o silncio. E chorara todas as lgrimas no derramadas trs anos antes, quando no se permitira lamentar o fim do casamento.
Olhou para a pasta. Suspirou. Compreend-lo no significava modific-lo.
 Como foi?
Era Todd, em p, ao lado da mesa. Surpresa, Jamie levantou o olhar. Pressentindo problemas, tentou aparentar calma.
Por que fora contar a ele sobre a srie antes de falar com Stone? No devia ter lhe dado esperana. Na verdade no teria feito aquilo se no tivesse certeza de que poderia lhe conseguir o lugar.
Virou a cadeira de frente para ele, procurando desesperada-mente uma forma de minimizar o impacto da notcia. No achou.
	Nada bem, Todd  finalmente admitiu.  O sr. Milton j tem ideia de quem quer como apresentador da srie.
	Quem?
Jamie estremeceu. Oh, como fora se meter naquela encrenca?
	Detesto lhe dizer, mas... sou eu.
Todd ficou vermelho. Contraiu os lbios.
	Ora, ora... muito conveniente!
	Todd, eu realmente queria que fosse voc.  Jamie brincava com uma caneta, nervosa.
	Claro, Jamie, claro...  Os olhos de Todd faiscavam perigosamente.  No pense que acredito. Milton acha que voc  a galinha dos ovos de ouro desta emissora. Ele e aquele consultor fariam tudo o que voc dissesse para mant-la feliz.
	No  por a, Todd.
	O que no  por a?
Era Stone. Jamie se voltou, to surpresa com seu tom frio quanto com sua presena na redao. De p, do outro lado da mesa, Stone encarava Todd, olhar duro, desconfiado.
	Stone...  Jamie corou. Era tudo culpa dela. Errara ao contar a Todd sobre a srie. E no podia agora met-lo em outra encrenca.
	O que no  por a?  Stone insistiu.
	A... a... a nova loja da Piggly Wiggly. Todd perguntou se chegaria l pela First Street. Mas no  por a.  por outro lugar.
	Sei...  Stone disse, ctico, sem tirar os olhos de Todd.
Claro que ele no acreditara. Jamie engoliu seco. Todd sorriu, sem graa. Acenou para algum do outro lado da redao, evaporou numa misso imaginria.
Stone se voltou para Jamie. Sorriu.
Mais fcil acreditar se voc inventasse uma loja de bebidas.
Ele no se deixara enganar, mas no ia censur-la. Agradecida, Jamie deu de ombros.
Stone franziu a sobrancelha. Agora parecia preocupado.
	Todd est passando por uma fase difcil porque foi rebaixado. Vai superar.
	No parece. Nem vai bem na equipe de reportagem. Discute com os editores, suas matrias so sempre fracas. J falei com o sr. Milton sobre ele. Vamos transferi-lo para o deparpamento de promoes. Se no se ajustar l, vai para a rua.
 Stone sentou-se no canto da mesa.  Ou muito me engano, ou voc o carregou nas costas por um longo tempo.
Incapaz de negar, e desconcertada pela proximidade, Jamie fingia observar a pena da caneta.
	Voc no pode salv-lo  Stone disse.
Mexendo o joelho, Stone tocou acidentalmente o brao dela. Foi como um choque eltrico. Constrangida, Jamie constatou que era impossvel encarar com naturalidade qualquer contato com aquele homem. Especialmente depois da noite passada.
De repente, percebeu que olhava fascinada para a perna dele, que parecia irresistivelmente sensual. Levantou o olhar. Mau negcio. Os olhos eram um territrio ainda mais perigoso. Voltou a olhar para a caneta.
A boca estava seca, os pensamentos dispersos aos quatro ventos, e Stone estava bem ali, esperando ela dizer alguma coisa. Jamie engoliu seco.
	Queria falar comigo?
	Na verdade, s queria v-la...
O brilho nos olhos dele a impedia at de respirar.
Ela era mesmo adorvel. Deix-la na noite anterior exigira todo o seu autocontrole, mas o rosto dela no lhe sara da cabea a noite toda. E, a julgar pelas marcas ligeiramente azuladas sob os olhos, ela tambm devia ter tido uma noite difcil.
	Voc parece abatida. Quer tomar um caf na minha sala?
	No, obrigada. Estou tima!  a voz soava animada demais.
	Dormiu bem?
	Como um beb.
Stone sorriu.
	Eu tambm. Acordava a cada duas horas e chorava.
Jamie riu. Ouvi-la rir reconfortava-o. Arrematando o gesto ensaiado antes, Stone acariciou o rosto dela.
Stone passara a noite procurando um meio de t-la de volta.
Quando os primeiros raios de sol j entravam pela janela de seu quarto de hotel, finalmente tivera uma ideia. Passara toda a manh trabalhando nela.
O risco era grande. Se fracassasse, comprometeria sua reputao e toda a sua carreira poderia desabar. E, mesmo que tudo desse certo, no havia garantia de que Jamie lhe daria uma segunda chance.
Stone no cansava de olh-la, seus cabelos brilhantes, seus grandes olhos azuis que evitavam os dele. Sentiu um vazio no estmago, que o sanduche engolido s pressas pouco antes no podia preencher. Ele a queria de volta, no por uma noite mas para o resto da vida. Por ela, estava disposto a correr qualquer risco.
	Pensei em voc a noite inteira.
	Foi? Em que exatamente?  Jamie tentava parecer indiferente.
	Gostaria de passar um dia com voc fora daqui. O que vai fazer sbado?
	No acredito que finalmente vai tirar um dia de folga...
	Vou. E quero pass-lo com voc.
	No posso. Preciso avaliar algumas locaes para a srie das crianas: o quartel do corpo de bombeiros, o rinque de patinao, o parque municipal...
	Parece divertido.
Jamie sorriu. Um sorriso evasivo.
	Desculpe, Stone. J tenho companhia.
	Quem?  Stone sentiu uma pontada no estmago.
	Michael.
"O jogo  o do gato e o rato... e o rato sou eu", Stone pensou, franzindo as sobrancelhas.
	E quem  esse cara?  perguntou, carrancudo.
Jamie sorria maliciosamente, fazendo suspense.
	Aquele garoto do orfanato. Achei que seria bom ouvir a opinio de uma criana. Ele vai passar o dia comigo.
Ele cara direitinho. Nunca sentira tanto cime antes. Levantando, Stone coou a nuca, sorrindo amarelo, tentando parecer indiferente.
	Posso ir junto?
Jamie s olhava, agora cautelosa.
	No sei se  uma boa ideia.
	Por que no? Talvez Michael goste de companhia masculina.
Jamie hesitou, pensativa, o que dizia que ele tocara num ponto sensvel. E Stone insistiu, implacvel.
	Se est com medo de no poder resistir ao meu charme, lembre que no vamos estar sozinhos.
Jamie se aprumou e respondeu, indignada:
	Isso no me preocupa nem um pouco.
	timo.  Stone levantou e sorriu, maliciosamente.  Pego voc s nove.
Stone amarrou a linha na pipa amarela, entregando-a a Michael.
	Tudo pronto para o primeiro teste de vo...
	Ob!  Michael levantou rpido, olhos brilhando.
Stone tambm levantou da colcha de retalhos desbotada.
	Vamos l. Vou ajudar no lanamento.  Sorriu para Jamie.  Quer ser o co-piloto?
Jamie balanou a cabea, sorrindo tambm.
	Prefiro ser controladora de vo, a distncia. Assim posso ficar aqui e tomar um pouco de sol.
Deitada, apoiada nos cotovelos, ela viu os dois se afastarem para mais perto do lago Fairfield, a mo de Stone no ombro do garoto. Pareciam pai e filho, pensou.
Jamie olhou para a pilha de ossos de frango no prato de Michael. Sorriu. A julgar pelo apetite, ele estava se divertindo
bastante.
Ele segurava a pipa, enquanto Michael corria pela margem do lago. De repente, uma lufada de vento a levou para o alto. Michael gritou de alegria quando a pipa ganhou altura. E Jamie podia ouvir, trazido pela brisa, o riso profundo de Stone, mesclado  voz do menino. Stone se voltou para ela. Sorriu. E Jamie sentiu o corao flutuando no cu, como a pipa.
Stone, polegar estendido, informava a Michael que o lanamento fora um sucesso. Em seguida, correu para Jamie, cujo corao disparou ao v-lo deitar a seu lado.
	Voc sabe mesmo empinar pipas  comentou.
	Sorte de principiante.  Stone sentou, esticou as pernas. Roou acidentalmente no brao dela, que voltou a sentir um choque eltrico pelo corpo todo.  Foi a primeira vez que empinei uma.
Jamie ergueu as sobrancelhas, surpresa.
	Voc nunca tinha empinado uma pipa?
	No.  Sob o sol, os olhos dele ficavam mais dourados que castanhos.  Tambm  a primeira vez que venho a um parque. Alis, tambm  meu primeiro piquenique.
Jamie ouvia, pensando nas implicaes daquelas palavras. Os pais dele nunca lhe deram uma pipa? Nunca o levaram a um parque? A um piquenique?
Como ela podia ter sido casada com o homem e nunca ter percebido? O que descobria agora deixava claro que ele fora uma criana carente, no s emocional mas tambm materialmente.
Jamie sorriu.
	Eu nunca teria imaginado. Voc parece um veterano.
Stone a abraava forte. Jamie parou de rir, comeando a sentir o calor daquele corpo tomando conta do seu. Levantou a cabea, olhou naqueles olhos, escuros, famintos. Os lbios entreabertos eram um convite. Jamie sentia o corpo inteiro vibrando de desejo, ardente, imediato. Como no pudesse evitar, beijou-os.
A atrao era to forte que ela temia perder o controle, a compostura, a noo da realidade.
Trmula, Jamie se afastou.
	Temos de ficar de olho em Michael  murmurou, voz dbil.
Stone olhou para o menino, que se divertia a valer.
	Certo.  Stone suspirou, sentando tambm.
Jamie alisou o suter, tentando acalmar-se.
Stone esticou as pernas, voltou a se apoiar no cotovelo.
	Gostaria de ter tido instrues sobre como fazer voc feliz quando ramos casados.  Stone falava srio.  E agora sobre como comear tudo de novo.
Jamie sentiu o corao disparar. Stone esticou o brao, acariciou seu rosto. O brilho nos olhos dele a comovia.
	Jamie, estou pensando em mudar drasticamente minha carreira. Ainda no sei se vai dar certo, por isso no quero entrar em detalhes. Mas queria que soubesse que estou tentando.
Jamie s ouvia, o corao cheio de curiosidade.
	E sobre comear de novo... tenho alguma chance, Jamie? 
Antes que ela pudesse responder, ouviram um grito. Assustada, Jamie olhou em volta, procurando Michael. Quando o viu, Stone j corria na direo dele. Jamie foi atrs.
Quando o alcanou, Stone j segurava a criana nos braos.
	Ele no est machucado  Stone disse.
	O que houve, Michael?  Jamie perguntou.
	A pi-pi-pi-pipa...  Soluando, o garoto indicava o alto de uma rvore, onde a pipa enroscara.
	Tudo bem, Michael, tudo bem  Stone tentava consolar o garoto.  Vamos tirar a pipa de l.
	Eu no que-que-queria fa-fa-fazer isso...
	Claro que no!  Stone desmanchou seu cabelo.  Ningum est bravo com voc.
Bravo? Jamie olhava para Stone, surpresa. Por que ele estaria dizendo uma coisa dessas?
Stone botou Michael no cho. E Jamie viu que ele estava duro, como se esperasse uma punio. Ainda chorando, olhava apavorado para ela e para Stone.
	Vo-vo-vocs vo me ca-ca-castigar?
Quem castigaria uma criana por involuntariamente estragar uma pipa? Algum que fazia parte do passado de Michael, Jamie logo se deu conta, chocada. Algum cuja ideia de castigo era suficiente para fazer o garoto tremer.
	Claro que no, Michael! Voc no fez nada errado. Abaixando-se a seu lado, Stone o abraou.
O medo de Michael parecia diminuir  medida que Stone, pacientemente, acalmava-o. Jamie, porm, sentia a raiva aumentar. Com que crueldade aquela criana fora tratada, a ponto de ficar apavorada por cometer um erro to sem importncia? Impossvel saber o que o garoto passara antes de ir para o orfanato.
Tambm era impossvel saber o que Stone passara na infncia, Jamie pensou de repente. Ele se identificara rpido demais com a atitude da criana.
Stone levantou. Estendeu a mo para o garoto.
	Vamos l, campeo. Vamos tentar soltar a pipa.
Enxugando os olhos na manga da camiseta, o garoto aceitou a mo estendida de Stone. E foram juntos enfrentar a rvore.
Jamie enxugou as lgrimas. Na mente, porm, ainda ecoava a pergunta que ele fizera. Seria possvel ma segunda chance?
Stone dissera estar reestudando a carreira. Estaria tentando mudar? Mudaria mesmo? Conseguiria?E, se ele no conseguisse, ser que ela conseguiria? 
O sol caa no horizonte quando Jamie e Stone desciam os largos degraus do orfanato, na direo do estacionamento. Deixaram Michael na sala de brinquedos, contando aos amigos como fora o dia, e mostrando a todos, orgulhoso, a pipa que recuperara.
 Acho que Michael se divertiu  Jamie comentou.
Stone tentava engolir o n na garganta, surgido ao se despedirem do menino. Gostara mesmo dele. Ficara comovido quando Michael o abraara, com seus bracinhos magros, na hora da despedida. Apesar do gnio alegre do menino, Stone detestou ter de deix-lo naquele prdio enorme, impessoal, aos cuidados de gente contratada. Uma criana como ele merecia um lar, uma famlia de verdade.
Como a que costumava imaginar para si mesmo, pensou.
Comida. Abrigo. Amor. Era crime negar a uma criana coisas to bsicas como as que ele sonhara na infncia. As mesmas com as quais Michael provavelmente sonhava agora.
Sobretudo amor. Nas poucas horas em que esteve com Michael, Stone pde ver que era o que o garoto mais queria. E isso tocara seu corao, pois era a nica coisa que ele prprio tambm ainda almejava.
Stone arriscou um olhar para Jamie. Ela lhe oferecera amor uma vez, e ele o deixara escapar por entre os dedos. No soubera lidar com aquele sentimento. No soubera faz-la feliz.
Ser que podia lhe dar tudo o que ela merecia, tudo o que precisava? Talvez estivesse velho demais para aprender. Talvez estivesse se enganando e conseguisse apenas mago-la um pouco mais.
A ideia causava-lhe certo mal-estar. Ele no conseguira perceber quanto a magoara durante o casamento, e agora preferia perder o brao direito a mago-la outra vez.
	Tudo bem a?  Jamie perguntou.  Voc est muito pensativo.
Abrindo a porta do jipe para ela, Stone respondeu evasivamente:
	Tudo bem. S estava pensando em Michael...
Jamie entrou, sentou. Olhou para ele. Seus olhos azuis tinham o mesmo tom do crepsculo.
	Ele  timo, no ? Tenho at vontade de...  Jamie desviou o olhar. Mas Stone j notara seu olhar tristonho.
	De...?
Jamie suspirou.
	De lev-lo para casa, am-lo, faz-lo esquecer tudo pelo que deve ter passado. Se no fosse melhor para ele uma famlia com pai e me, eu tentaria adot-lo sozinha.
O mal-estar aumentou. Stone deu a volta, entrou no carro.
	Voc j est fazendo bastante, tentando achar um lar para ele.
	Tomara que d certo.  Ao ajustar o cinto de segurana, Stone esbarrou na mo na dela.  Michael precisa da figura de um pai na sua vida. Ele se deu bem com voc.
	Parece que temos muito em comum.  Stone deu de ombros. Muito mesmo, dizia para si mesmo, lembrando-se da prpria infncia.
Jamie estava sombria. Stone sabia que ambos pensavam no mesmo assunto. E agradecia por ela no insistir em saber mais, por deix-lo falar sobre o passado a seu modo, quando e como quisesse.
 Ele precisa de algum como voc  ela disse.  Foi timo voc ter se oferecido para lev-lo pescar no prximo fim de semana.
Stone arriscou um sorriso.
	Estou ansioso. Vai ser divertido ver voc iscar anzol.
	Iscar anzol?  Jamie arregalou os olhos.  No mesmo, sr. Johnson!  protestou.  Ningum me convidou para ir junto, muito menos para iscar anzol.
	Tudo bem.  Stone ampliou o sorriso.  Est dispensada de lidar com minhocas. Mas voc vai, no vai?
	S se vocs usarem iscas de plstico.
	Combinado.  Stone ligou o motor, satisfeito. Acabara de marcar outro encontro com Jamie.  Fazia tempo que no me divertia tanto como hoje. E voc?
	No queria que o dia acabasse  Jamie admitiu.
Exatamente o que Stone sentia: no queria ficar sozinho. Isso significava que teria de pensar seriamente no que estava fazendo.
Com que direito se insinuava assim na vida dela? O que tinha para oferecer? Estava tentando melhorar a vida profissional, claro, mas isso era um problema menor.  maior residia na essncia do relacionamento entre eles: ele seria capaz de amar Jamie como ela precisava ser amada?
	Bem, o dia no precisa acabar agora  disse, saindo do estacionamento.  Por que no passamos no supermercado, fazemos algumas compras, e voc me empresta a cozinha? Estou cansado de comida de restaurante, morrendo de vontade de sujar umas panelas.
	S se lavar todas depois.  Jamie sorriu.
Trinta minutos depois passeavam pelo supermercado. Como antigamente, Jamie pensava, excitada. Escolher os abacates, apertando um a um, verificar as datas de corte no balco da carne, comparar os rtulos no expositor de especiarias, tudo parecia um evento to importante quanto o baile da Academia de Artes.
Carregaram o carro, saram, chegaram, descarregaram. Tudo numa harmonia que parecia ensaiada.
Como se fossem casados h anos, Jamie pensou. Parou de repente e perguntou-se como estariam agora se no tivessem se divorciado. Seriam pais tambm? Fora maravilhoso passar o dia com Stone e Michael, como uma famlia de verdade.
Melhor no pensar em hipteses e viver o momento.
Jamie abriu a geladeira. Guardou o queijo.
	No vai me contar o que vai cozinhar?
	Quando eu descobrir.  Stone vistoriava o armrio. Achou uma assadeira.  Confie em mim, tenho uma ideia.
Era o que dizia um produtor que trabalhara com eles em Tulsa, cujas ideias esdrxulas geralmente no davam certo. Jamie riu.
	No  prudente pedir uma pizza? S por garantia.
	Ah, mulher de pouca f...  Stone a censurou, botando um peito de frango na assadeira.
Talvez, Jamie pensou. Talvez ela devesse ter um pouco mais de confiana. A maneira como Stone agira hoje mostrava que estava mesmo tentando mudar. Merecia um voto de confiana.
Jamie sorriu, tentando parecer despreocupada.
	Confio em voc, Stone. Como posso ajudar a pr suas ideias em prtica?
Stone se voltou. O olhar j no era o mesmo. Hesitou um segundo, o suficiente para Jamie achar que ia dizer o que ela tinha em mente. Mas s sorriu, mostrando a covinha.
Que tal fazer a salada?
Era como antigamente, mas melhor, Stone pensava. Falavam sobre tudo. Jamie rira tanto de suas piadas de redao que quase apagara a vela que ele acendera no centro da mesa. Como era bom v-la rir... comer algo que ele lhe preparara. Talvez a comida nem estivesse to boa, talvez s parecesse mais gostosa por eles estarem juntos na mesinha redonda da cozinha da casa dela.
Jamie pousou o garfo, satisfeita.
	Estava uma delcia. Qual  o nome desse prato?
Stone respondeu sem pensar:
	Frango Seduo.  A voz era baixa, rouca. De repente, o ar do ambiente parecia mais pesado, difcil de respirar. Estendeu a mo, colocou sobre a dela.  Gostou da ideia, Jamie?
Ela desviou o olhar.
	Achava que a gente fosse manter as coisas num nvel mais... modesto  murmurou.
Jamie tinha razo. Mas o que ele sentia no era nada modesto. Era um torvelinho de emoes complexas, complicado como os desenhos de um caleidoscpio, sempre em mutao.
Frustrado, Stone suspirou. Tinha de sair dali, logo, antes de dizer ou fazer algo de que pudesse se arrepender depois.
	Certo.  Stone soltou a mo dela, afastou a cadeira, tentou sorrir.  Eu cuido da loua, voc cuida do resto. Parece modesto?
O trabalho correu sem incidentes, mas a harmonia espontnea de antes j no havia. Agora havia no ar certa tenso. Stone botou sabo na lavadora de louas, ligou, olhou em volta.
	Bem, tudo certo.  Afastou-se do balco. Jamie tambm j pendurava o pano de pratos na ala do forno.  Acho melhor a gente encerrar a noite por aqui.
Jamie foi com ele at a porta. J segurando a maaneta, Stone sentiu no brao o suave toque da mo dela.
	Obrigada por vir conosco. Michael gostou da sua companhia.
	E voc?
	Eu tambm. Nunca tinha visto voc com uma criana. Voc tem jeito para lidar com elas.
Stone achara o mesmo sobre ela, mas preferiu no dizer nada. Isso traria  baila um assunto sobre o qual no momento preferia no falar, nada tinha para dizer. Por enquanto, a mudana que pretendia fazer na carreira era s uma hiptese, com reduzidas possibilidades de sucesso. Seria crueldade contar a Jamie, faz-la crer que poderiam ter futuro juntos, e depois ver tudo ir por gua abaixo.
Se no fizesse amor com ela, pensava, no a magoaria. Se pudesse controlar aquele mpeto de querer toc-la, abra-la, tirar suas roupas devagarinho, beijar cada pedacinho de seu corpo, talvez pudesse passar mais tempo com ela, sem partir seu corao quando deixasse a emissora.
	Boa noite, Jamie.  Beijou-lhe a testa. Saiu.
Joelhos trmulos, corao aos pulos, Jamie o seguiu at a varanda. Viu-o entrar no carro. A reserva de Stone causava nela o mesmo impacto emocional de seus beijos mais apaixonados. Depois entrou, vagando sem rumo pela casa. Quando deu por si, estava no quarto, olhando para a caixinha de msica. Abriu a tampa, libertando a melodia.
Olhos fechados, a mo sobre a cmoda, ao lado do casalzinho giratrio, deixou se levar pelas lembranas.
Acabavam de sair do chuveiro. Aos beijos, enxugavam um ao outro. Stone sentara na cadeira de balano, tendo Jamie em seu colo.
	Confie em mim, tenho uma ideia  ele dissera, sorrindo maliciosamente.
Jamie mordeu o lbio. Sorriu.
Stone a levantara. Baixara lentamente. Pusera a cadeira de balano em movimento. Fora como estar voando, flutuando no ar. Seu nico contato com a gravidade era o delicioso contato com Stone. Cavalgava-o como se ele fosse Pgaso, um cavalo alado que a levava s estrelas. O prazer crescia pouco a pouco, cada vez mais... mais... mais... at finalmente explodir a seu redor.
Jamie murmurava o nome dele. E ele o dela. Naquele momento, eram ambos um ser nico. Completos. Repletos. Absolutos.
Absolutamente casados.
A lembrana era to doce que as lgrimas no tardaram.
Voltariam um dia a viver enlace to perfeito? Preencher to completamente as necessidades um do outro? Com tal sinceridade, confiana, amor?
Jamie sentou na cadeira de balano, olhando os bonecos da caixa de msica. Seria a morte voltar a se envolver com Stone e ver a relao fracassar outra vez. Teria coragem de tentar.'
Teria coragem de no faz-lo?
Intil. A quem ela estava tentando enganar? O corao ja decidira. Por mais que relutasse, ela se apaixonara pelo ex-marido.
No, no era verdade. Nunca deixara de am-lo.
Ainda amava Stone.

CAPITULO X

Trip sob o brao, Jamie seguia pela trilha em direo aos estbulos do parque Fairfield. Era bom estar ao ar livre numa tarde to bonita. Por entre os galhos das rvores, o sol iluminava o colorido vibrante das azalias ao redor. No ar fresco, o perfume do ms de maio.
	Que dia maravilhoso! Tudo parece to brilhante... to bonito.
Harold botou a cmera no ombro, ajustou a bateria e riu, enrugando as feies desgastadas.
	Garota, estar apaixonada combina com voc!
Jamie sorriu, meio sem graa. O boato da reaproximao dela e Stone se espalhara rapidamente pela emissora.
No que tivessem tentado esconder. Stone almoava com Jamie quase todo dia, frequentava assiduamente a mesa dela na redao, e a levava para jantar todas as noites.
Tambm passavam bastante tempo com Michael. Os trs estavam sempre juntos nos fins de semana, cuidando da horta que fizeram no quintal de Jamie, visitando Flossie, ou descobrindo outras formas de aproveitar o agradvel clima da primavera.
Jamie estava totalmente apaixonada por Michael, e sabia que Stone tambm. Ele e o garoto pareciam despertar o que havia de melhor um no outro. Quando estava com Stone, a timidez de Michael sumia por completo. Jamie nunca vira Stone to cordato e brincalho como quando estava com o menino. Vendo os dois juntos, ficava fcil fingir que os trs eram uma famlia de verdade. Essa se tornara uma das fantasias prediletas de Jamie.
Ela e Stone continuavam mantendo sexo a distncia, contatos fsicos limitavam-se a beijos de fim de noite, que sempre deixavam Jamie querendo mais. Mas era mais sbio esperar, fazer amor certamente complicaria a convivncia deles, antes precisavam resolver os motivos que levaram  separao, por mais difcil que isso fosse.
A atrao entre eles era mais forte que nunca. Quando Mi-chael no estava, iam a restaurantes, cinemas, sempre locais pblicos, tentando impedir que a paixo entre eles fugisse de controle.
Isso, porm, ia ficando cada vez mais difcil. A tenso sexual entre eles era como um fio, esticado ao mximo, prestes a arrebentar.
Nas ltimas semanas Jamie pensara exaustivamente no assunto, inclusive em seu prprio comportamento durante o casamento. E conclura que no fora to irrepreensvel.
Sempre achara que estabilidade fosse morar num lugar s. Mas recentemente descobrira que estabilidade era amar um homem como Stone... ntegro, estvel como uma rocha.
Enganara-se ao imaginar que um lar fosse um lugar. Lar era onde estivesse o corao, e o seu estaria sempre com Stone.
Ele dissera que mudaria, e seu comportamento confirmava a inteno. Ainda trabalhava at tarde, claro, mas j no levava trabalho para casa. Quando estava com ela, estava mesmo... sempre atento, interessado, presente.
Estava tudo perfeito, exceto por uma coisinha -toa: Stone nunca dissera com clareza querer casar com ela outra vez.
Claro que ambos podiam ceder um pouco. Sentindo-se prioridade na vida de Stone, ela o acompanharia aonde ele quisesse.
Por isso, at vendera a casa. Procurara uma imobiliria duas semanas antes. E o primeiro casal que a visitara, fechara negcio. Sem regatear.
Jamie sorriu, pensando na surpresa que faria a Stone. Naquela tarde ele iria a Chicago, passaria a semana na matriz da emissora. Contaria quando ele voltasse. Sabia que ele valorizava mais a ao que as palavras. E a melhor maneira de mostrar quanto o amava era estar pronta para partir com ele rumo a seu prximo compromisso.
Riu imaginando a cena. Ela o convidaria para jantar, prepararia o mesmo Frango Seduo de semanas antes e o esperaria na varanda, s para ver a cara dele quando visse a placa Vendida no gramado. Stone levaria um susto. Ergueria as sobrancelhas daquele jeito encantador, indicaria a placa, perguntaria o que estava acontecendo. Depois de um abrao, ela diria que nada mais a impediria de estar ao lado dele, que o amava mais que tudo, e estariam juntos mesmo que fosse no fim do mundo. Ento...
	Ei, garota, vai ou no vai me dar esse trip?
Perdida em devaneios, Jamie nem percebera j terem chegado ao estbulo, onde gravariam o Um Lar para Mim daquela semana. Voltando  realidade, entregou o trip a Harold. Voltou-se para os cavalos no cercado.
Um ruo de cara branca relinchou, sacudiu a cabea, exibindo os enormes dentes amarelos, como num sorriso. Jamie riu. Era como ela prpria se sentia  mesa de ncora, pensou. J no ficava mais aterrorizada frente as cmeras, mas ainda se sentia ridcula.
Para ela, ler um script sob os refletores parecia bobagem, perda de tempo, especialmente se comparado ao que estava realizando na srie das crianas.
Pensando na srie, Jamie sentiu um gostinho de satisfao. Tudo ia bem, muito bem. As histrias davam mais resultado do que ela imaginara. Superavam todas as expectativas.
Quatro programas foram exibidos at ento. E todas as crianas apresentadas receberam propostas de adoo. Vrios casais j participavam do processo seletivo. Se desse tudo certo, em poucos meses todas as crianas teriam sido adotadas.
De repente, Harold advertiu:
	No olhe agora, garota, mas outro quadrpede vem vindo a...
Jamie se voltou. Viu uma silhueta conhecida aproximando-se. Era Todd. S de v-lo, Jamie sentiu enjoo. Encontr-lo no era um prazer, mas tentou ser amvel.
	Oi, Todd. O que faz aqui?
Todd sorriu. Um sorriso artificial.
	Vim gravar material promocional.
Mais atrs, estava um cinegrafista montando a cmera num trip.
	Stone falou da promoo, mas eu no sabia que a gravao seria hoje.
Todd deu de ombros.
No sei por qu, mas ele insistiu em gravar o garoto de hoje.
Jamie imaginava por qu. Michael seria apresentado naquele programa. E Stone sabia que a chamada daria a Michael exposio adicional, portanto mais chances de conseguir um lar.
	O que vai gravar?  Jamie perguntou.
	Algumas cenas de voc com o menino.
	Posso ver o scriptl  Jamie perguntou, vendo os papis na mo dele.
Todd no deixou.
	Stone disse que tem de ser surpresa. No quer que voc veja.
	Por qu?
	No quer que voc corte as coisas bonitas que diz sobre voc...
Michael e a sra. Mathis chegaram. Jamie se desculpou e saiu, feliz por poder encerrar aquela conversa desagradvel.
A assistente social acenou, sentou num banco  sombra de uma rvore. O garoto correu para abraar Jamie.
	Est contente por aparecer na televiso?  Jamie perguntou ao menino.
	N-no. Estou apa-pa-pavorado.
Jamie logo sentiu o problema. Ajoelhou ao lado dele.
	Se voc no quiser, no precisa falar nada  disse.
	Ma-mas meu ami-mi-migo disse que, se eu n-n-no falar, n-n-no vou achar um lar. Po-po-porque ningum vai me querer.
	No  verdade.  Jamie o abraou mais forte.
	Ma-ma-mas eu tenho ma-ma-mais chance se falar, n-n-no ?
	Quando fala, todos podem ver como voc  bom e esperto.  Jamie escolhia as palavras com cuidado.  Se falar, vai mostrar que o problema no impede voc de se comunicar.
Vendo a dvida estampada no rosto do menino, Jamie se comoveu. Sabia o que ele estava pensando: que era defeituoso, que no merecia ser amado. Compreendia seu sofrimento, porque tambm j se sentira da mesma forma.
A compreenso de Stone a ajudara a aceitar o problema tambm. E ela queria fazer o mesmo por Michael. Talvez, compartilhando a prpria experincia, pudesse ajud-lo a entender que gaguejar no o diminua.
Lembra que eu lhe disse que tambm gaguejava? Bem, agora vou contar um segredo: ainda morro de medo de gaguejar. Sei que  bo-bo-bobagem, mas, quando fa-fa-falo no assunto, comeo a gaguejar  Jamie comeava a corar. Tentou sorrir.  Est ve-ve-vendo? Como ago-gora.  Fez uma pausa, respirou fundo. Se Michael entendesse que tinham o mesmo problema era um passo importante para aceitar a deficincia e poder super-la.
Michael s olhava, intrigado.
	E co-como  que vo-vo-voc fala na te-te-televiso?
	Eu me concentro no que estou di-di-dizendo e tento esquecer o resto  Jamie sorria, mostrando cumplicidade.  Viu? J est funcionando. s vezes tambm imagino as pessoas de cueca.
Michael comeou a rir.
	A fonoterapeuta vai lhe ensinar uma poro de truques. A empresa de consultoria de Stone pagara um ano de terapia para o menino. As sesses comeariam na semana seguinte.
	Tenho uma ideia. Hoje a gente vai tentar s se divertir.
Vamos usar uma girafa para suspender o microfone e gravar tudo o que falamos. Se a gente se divertir bastante, voc nem vai perceber que est falando.
	N-n-no te-te-tenho de falar no mi-mi-microfone?
	No.
	Ob!
Jamie riu.
	Agora, por que no espera l com a sra. Mathis at a hora de comear? Depois ns vamos passear de pnei.
O menino riu e saiu correndo na direo da assistente social. Ao se voltar, Jamie trombou com algo. Todd.
	Oh, desculpe, Todd. No vi voc a.
	No foi nada  Todd acenou para o cinegrafista, que desligou a cmera focada em Jamie.  S estvamos gravando material da sua conversa com o garoto.
Epa! Teriam gravado toda a conversa? E o som da cmera, estaria ligado? Todd teria estado suficientemente perto para ouvir sua conversa com Michael?
Jamie corou. No faz mal, dizia para si mesma, tentando no parecer envergonhada. Estavam fazendo s imagens. O som no seria usado quando a chamada estivesse pronta.
Alm disso, que diferena faria Todd saber que ela gaguejava? Ele j tinha problemas demais para se preocupar com ela.
	Oi, Jamie  uma voz conhecida disse.
Jamie esqueceu Todd completamente. Era Stone, chegando pela trilha. Bastava ouvir o som da voz dele para seu corao acelerar, bastava v-lo por perto para o dia ficar mais alegre.
Jamie correu na direo dele.
	Que surpresa! Pensei que voc fosse para Chicago.
Stone a beijou rapidamente, segurando-lhe as mos.
	Estou indo para o aeroporto. Mas resolvi passar por aqui e checar o anncio. Era uma boa desculpa para ver voc antes de viajar.
Logo ele estaria distante. Os planos para mudar de vida no iam nada bem. A menos que conseguisse um milagre em Chicago, dali a duas semanas estaria assumindo outra tarefa como consultor.
Talvez fosse at bom ir embora logo, Stone pensava, desanimado. Nada tinha para lhe oferecer, nada que ela realmente precisasse. Percebera aquilo durante o ltimo ms, vendo-a na companhia de Michael. O que ela realmente precisava era de um lar permanente, uma famlia, um marido que soubesse faz-la feliz.
Ele j a magoara uma vez, no queria mago-la de novo. Para ela, melhor seria ele sumir de sua vida.
De repente, Stone viu Todd ali perto. Soltando as mos de Jamie, dirigiu-se a ele, cenho franzido.
	Este anncio era de Chuck  disse.
Chuck era o chefe do departamento de promoes.
	Chuck est de cama, gripado.  Todd parecia nervoso.  E me pediu para gravar o material.
	Este anncio  importante, Todd. Eu mesmo escrevi o texto. Quero tudo exatamente como planejado.
	Claro, claro...  Todd concordou. E saiu.
	Isso  mesmo necessrio?  Jamie perguntou.  Afinal, s vou estar na ancoragem mais duas semanas.
	Talvez sejam as mais importantes  Stone lembrou.  Precisamos fazer todo o possvel para aumentar a audincia.  importante para a venda da emissora.
	Algum interessado?
	Dois.  por isso que vou a Chicago.
	Stone!  Michael gritou.
Quando Stone percebeu, o garoto, que vinha correndo, j estava pendurado em seu pescoo.
	Oi, campeo.  Stone o abraou tambm, comovido com aquela demonstrao de afeto.
Em seguida, em vez de p-lo no cho, colocou-o nos ombros.
Jamie s olhava. A luz do sol reluzia nos cabelos dourados, iluminando seu rosto sorridente, realando o azul impossvel daqueles olhos. Parecia um anjo.
Stone tentava gravar a cena na memria. Queria lembrar todos os detalhes, para poder reviver o momento quando tivesse ido embora.
Tal ideia tirava todo o prazer da brincadeira.
Quando colocou o garoto no cho, Stone tentava mostrar na voz um nimo que, de repente, j no sentia.
	Est pronto para virar artista de tev, Michael?
O garoto balanou a cabecinha de cabelos crespos indicando que no.
	Por que no? Vai ajudar voc a achar uma famlia.
	J achei.  O garoto olhava para Stone, srio.  Voc e Jamie.
Essa no. Ele devia ter previsto. Stone engoliu seco, evitando olhar para Jamie.
	Jamie e eu no somos uma famlia, Michael.
	Seriam se vocs casassem.
	Michael, no  assim to fcil.
	Por qu?  O menino insistia.  Voc no gosta dela?
Desconfortvel, Stone botou as mos nos bolsos, baixou o olhar. Admitir o que sentia, s dificultaria as coisas mais tarde.
	Casamento  um pouco mais que isso, Michael  esquivou-se.
	Mais o qu?
	Bem... compatibilidade, por exemplo.
	Vocs no tm isso?
A pergunta inocente pairava no ar. Stone olhava para Jamie. A expresso confusa daqueles olhos azuis o atingia profundamente.
Ele no queria mago-la. Como pudera fazer aquilo?
	s vezes, mesmo que se gostem, as pessoas no devem se casar, Michael. Para isso, tm de querer as mesmas coisas, poder ajudar a realizar os sonhos uma da outra. E s vezes isso  impossvel.
	Ento voc e Jamie no vo casar de novo?  Michael estava decepcionado.
Stone sentia a boca seca, incapaz de olhar para Jamie. A mgoa no rosto dela, a expresso de sofrimento naqueles incrveis olhos azuis, provavelmente o assombrariam pelo resto da vida.
Mas o menino ainda esperava uma resposta.
	Michael, agora no  hora nem lugar para discutir isso.
	Ento  no  Michael suspirou.  Os adultos sempre fazem assim quando querem dizer "no".
Stone tentava evitar o olhar dela, que atraa o seu como um im.
	Tenho de ir, seno perco o avio. Vejo vocs em alguns dias.
Rapidamente, Stone saiu pela trilha, sentindo-se o ltimo dos homens, xingando a si mesmo de todos os palavres que conhecia.
Talvez um dia Jamie lhe perdoasse por ter voltado ali, voltado a mago-la. Ele, porm, jamais se perdoaria.

CAPITULO XI

Trs minutos  o diretor avisou. Jamie prendeu o microfone na lapela do vestido novo. Azul. A cor a fazia lembrar de Stone. Como tudo.
Respirou fundo. Comprara o vestido algumas semanas antes, porque azul era a cor predileta de Stone. E o vestira esta manh porque era o dia em que ele voltaria de viagem.
Stone passara fora a semana inteira. No ligara. No mandara um fax, nem postal, nem sequer um E-mail. No a procurara desde o dia em que dera a entender no pretender casar-se com ela de novo.
Jamie sentiu um n na garganta. Ordenou os papis  sua frente, achando que devia fazer o mesmo com os sentimentos.
Era como se as semanas anteriores, em que o via todo dia, jantava com ele toda noite, jamais houvessem existido. Porque ela estava de volta ao mesmo vazio, solitrio, sem amor, em que vegetara desde o divrcio.
Enganara a si mesma sobre Stone, vendo apenas o que queria ver, pensou, taciturna. Superestimara a atrao fsica que ainda sentiam um pelo outro.
Fora tola como uma adolescente apaixonada. Por ele, abrira mo de tudo. Seus segredos, seu corao... at de sua casa. To ansiosa estava para lhe mostrar que o amava que nem questionara os sentimentos dele.
Como pudera se iludir tanto? Como pudera pensar, naquele dia, no parque, que ele falava em casamento quando falara em recomear?
Teria havido algo que o fizesse mudar de ideia? O qu? Algo que ela tivesse feito?
Depois de muito pensar no assunto, Jamie finalmente conclura que nada daquilo na verdade importava. Importante era que Stone no queria casar. Se o que dissera a Michael no fosse suficiente para faz-la entender o recado, o fato de ele no ter ligado a semana inteira devia t-la convencido.
Stone no a amava o suficiente para tentar de novo.
Jamie fitava os papis sobre a mesa. Achara ser impossvel sofrer mais que ao terminarem o casamento. Mas estava errada. Acabava de descobrir que nunca esquecera Stone, e a descoberta a deixava sem qualquer perspectiva de futuro. Agora sabia que seu destino era amar para sempre um homem que no queria ou no podia retribuir seu amor.
	Um minuto  o diretor gritou.
Jamie suspirou. Precisava se recompor, pelo menos durante os prximos trinta minutos. A matria sobre Michael iria ao ar naquele dia, e ela precisava fazer todo o possvel para ajud-lo a achar um lar. Depois teria muito tempo para pensar em Stone e como viver sem ele. Na verdade, teria o resto da vida.
Jamie se aprumou, respirou fundo, e colocou o fone de ouvido.
	Jamie, aquele seu anncio novo vai ser veiculado antes da introduo  o diretor informou.  Voc j viu?
Jamie no vira. Olhou para o monitor no exato momento em que seu rosto aparecia na tela, em dose. A seguir, vrias tomadas sobrepostas dela sentada  mesa de ancoragem, enquanto a msica de fundo subia.
	Jamie Erickson, a mais nova estrela do jornalismo da KZZ, tem algo especial...  dizia a locuo aveludada.  No sorriso... no sincero interesse pela notcia e seus protagonistas...
No vdeo, pipocavam flashes de Jamie com vrias crianas sob a legenda Um lar para mim. Em seguida, imagens de Jamie e Michael no estbulo...
	Jamie realmente compreende a adversidade, pois  algo que conhece bem. Sempre que ocupa esta mesa de ancoragem  um zoom dramtico aproximava a mesa vazia , luta para no gaguejar. Apesar da deficincia na fala, est no ar todos os dias, levando at voc as ltimas notcias da comunidade...
	Jamie Erickson e o canal trs... indo mais longe para trazer a notcia mais perto de voc.  A msica cessou e o logotipo da emissora encheu a tela, encerrando o anncio.
Jamie fitava o monitor, sentindo o sangue gelado nas veias, tentando entender ao que acabava de assistir. Sentia-se exposta, como se aquele vestido novo fosse de plstico transparente.
E trada. Completamente trada.
Por quem? Aquilo no fazia sentido.
No fazia sentido, Jamie repetia para si mesma sem parar. Como aquilo podia ter acontecido? Stone redigira o script.
Stone. A ideia a atingiu como uma marretada, mas Jamie a rejeitou incontinenti. Impossvel. Ele no. Mesmo que no a amasse, ele jamais a trairia.
Todd! Claro, s podia ter sido ele. E o infeliz queria faz-la pensar que fora Stone.
Mas procurar o culpado no adiantava nada. Agora toda a cidade sabia de sua deficincia. E na certa esperava v-la gaguejar.
A introduo do jornal estava no fim. E Jamie, apavorada. Mal podia respirar. Como poderia dizer alguma coisa?
	Tudo certo, garota? L vamos ns.  Harold parecia realmente preocupado ao sinalizar que estavam no ar.
Jamie fitava a luz vermelha sobre a cmera. Abriu a boca, mas no conseguia dizer nada.
	Voc est no ar, Jamie  o produtor disse, plido.
Jamie olhava para lugar nenhum, incapaz de se mover.
	Vamos, vamos... - o diretor dizia.
Concentre-se, Jamie dizia para si mesma, mas as ideias insistiam em rodopiar pela mente. O que ela dissera a Michael na semana anterior? No conseguia lembrar, mas lembrar de Michael parecia ajudar a recobrar o raciocnio.
A histria dele seria veiculada naquela edio. E ele estava vendo.
Ela no podia decepcion-lo, deixando-o v-la paralisada pela gagueira. Talvez ele nunca acreditasse ser possvel superar o prprio problema se ela falhasse agora.
Jamie respirou fundo. Concentrou-se no menino.
	Bo-bo-boa ta-tarde  comeou.
Ouviu a voz do diretor no fone de ouvido. Ela precisava se concentrar, e no conseguiria se ele no parasse de cochichar em seu ouvido. Puxou o fio, arrancando o aparelho.
	Sou Ja-Ja-Jamie Erickson e este  o jo-jo-jornal do me-me-meio-dia.
Jamie pegou uma das laudas  sua frente, concentrou-se no significado das palavras, no contedo da notcia. Poucas palavras depois, parou de gaguejar.
Quando a luz da cmera de Harold piscou, ao fim da transmisso, Jamie estava ensopada de suor.
Podia ter gaguejado no ar, mas chegara ao fim do telejornal. Enfrentara seu maior pesadelo. Sobrevivera. O mundo no acabara. O teto no desabara sobre sua cabea.
O medo j era bem menor. Instintivamente, Jamie sabia que nunca mais sentiria tanto medo. Agora todo mundo sabia que ela gaguejava. E, se j no havia segredo, no havia o que temer. Jamie sentia no peito uma doce sensao de liberdade.
Tirou o microfone, levantou-se da cadeira, pensando em Michael. Na certa, ele no vira vitria alguma, s a vira gaguejar no ar.
Jamie mordeu o lbio. No podia deix-lo questionar a prpria capacidade de resolver problemas, sucumbir ao medo, limitar suas escolhas na vida.
	Tudo bem, garota?  Harold perguntou, preocupado.
	Tudo bem...  Jamie respondeu saindo do set.  Vou at o orfanato, ver se Michael tambm est bem.
Quando Stone chegou  redao, vinte minutos depois, estranhou a recepo nada amistosa. Na verdade, gelada.
Perguntou  secretria sobre o paradeiro de Jamie. A resposta foi curta e grossa. O editor de planto fingiu que no o viu. E alguns reprteres perto do bebedouro o olhavam com frieza.
Perto da mquina de caf, encontrou Harold.
	Oi, Harold.
Harold fez cara feia, enterrou o nariz no copo de caf. Alguma coisa estava errada. E Stone queria saber o qu. Cruzou os braos sobre o peito.
	Tudo bem, Harold, pode comear a falar. O que est havendo?
Harold pousou o copo com tal fora que o caf respingou.
	O que voc fez com Jamie foi sujeira.
	E o que foi que eu fiz?
Harold ergueu as sobrancelhas grossas.
	Aquele maldito anncio... contando que ela gagueja, que entra no ar com medo de acontecer a qualquer momento.
	O texto que mandei produzir no dizia isso.  Stone estava furioso.  O que foi que aconteceu aqui?
	O anncio foi veiculado antes do jornal do meio-dia. Jamie ficou confusa. No comeo, nem conseguia falar, mas acabou transmitindo o jornal.
	O povo no pra de ligar para c  Harold prosseguiu. Metade diz que ela  o mximo. A outra metade diz que a emissora a explora.
Todos na redao pareciam ter a mesma opinio, Stone pensou. E, a julgar pelo olhar, achavam que o responsvel era ele.
Ser que Jamie tambm achava a mesma coisa? S de pensar, Stone sentiu um frio no estmago.
	Onde ela est?
	Disse que ia para o orfanato. Estava preocupada com Michael.
Bem prprio dela, Stone pensou. Acabara de passar pela maior humilhao de sua vida, e estava preocupada com os outros.
Jamie tinha um corao to bom, generoso. E, quando o entregava a algum era sem reservas, nos bons e maus momentos...
Na alegria e na tristeza...
Ele fora mais idiota do que supunha. Como ainda no percebera?
No fundo, ela ainda era sua esposa. Se ela o aceitasse de volta, ele seria o idiota mais feliz do mundo. E passaria o resto da vida tentando ser o homem que Jamie merecia.
Stone olhou para Harold.
	Quero ver a fita do telejornal. E depois quero ver Todd.
Harold comeava a entender o que acontecera.
	Quer dizer que foi aquele intil? Miservel...
	Guarde isso para depois, Harold  Stone o interrompeu. Traga a fita. Quero resolver logo este assunto, porque depois tenho outro mais importante para resolver com Jamie.

CAPITULO XII

	Sei l  Michael dizia, em dvida , acho que eu teria fugido.
Jamie colocou mais um bloco de madeira na torre que construam na sala de brinquedos do orfanato.
	Se eu tivesse fugido, sua histria no seria apresentada. E era importante para mim tentar achar um lar para voc.
	Mas voc no se sentiu mal?
Jamie olhou bem dentro daqueles olhinhos castanhos.
	Claro que sim, mas me sentiria pior se fugisse. Ficando l, consegui controlar a gagueira e acabar o que tinha comeado.
	Voc no estava com medo?
	Estava. Mas no queria que o medo vencesse. Venci por que no desisti. E o medo nunca mais vai ser to forte, porque agora sei que posso mais que ele.
	Chamam isso de coragem  uma voz masculina, profunda, disse na porta da sala.
	Stone!  Michael gritou, levantando e correndo na direo dele.
Com o corao aos pulos, Jamie viu Stone abraar o menino e coloc-lo de volta no cho.
	Michael, preciso falar com Jamie. Por que no vai brincar com os garotos l fora? A gente encontra voc daqui a pouco.
	E vamos sair para tomar sorvete?  Michael perguntou.
	Combinado.
Michael saiu. Jamie olhava para Stone, sem saber o que dizer ou fazer agora que estava tudo mudado entre eles.
No, no era verdade. Nada mudara, exceto sua percepo das coisas, do relacionamento deles, do que significavam um para o outro, do futuro. Nada mudara, exceto sua vida. Que desabara quando Stone dera a entender no pretender casar com ela de novo.
Jamie levantou, sentindo as pernas trmulas. Cruzou os braos, tentando parecer serena.
	Quando chegou?
	Faz uma hora. J soube do que houve.  Stone se aproximou, segurou seus ombros, srio, preocupado.  Sinto muito, Jamie. Espero...  A emoo que ela via nos olhos dele quase fazia ruir sua aparente tranquilidade. Como ele podia parecer to terno, preocupado, carinhoso, e pretender abandon-la?  Espero que saiba que no fui eu que escrevi aquilo.
Como ela poderia duvidar? Por mais que ele a magoasse, nunca lhe passaria pela cabea questionar sua integridade. Era o que ele mais prezava na vida.
	Eu j sabia  Jamie respondeu.  Foi Todd, no foi?
	Foi.  Stone no contou mais nada. No contou que quase o esmurrara na redao.  Ele achava que voc deixaria o cargo se gaguejasse no ar, e ele reassumiria. Acabou admitindo que bebia demais, e por isso confundiu tudo.  Stone correu os dedos pelo cabelo.  Concordou em se tratar. Quando voltar, ficar em observao. Ser demitido  menor infrao.
	Sempre tive pena dele  Jamie murmurou.  Parecia dominado por uma fora que no podia controlar. Foi bom voc falar com o sr. Milton para no demiti-lo.
	Na verdade, essa deciso no cabe mais ao sr. Milton.
	Ento... a emissora foi vendida?  Jamie perguntou, surpresa.
	Sim. O sr. Milton j pode se aposentar, como queria. O novo dono vai presidir a emissora.
	E o emprego de todos... est garantido?
	E uma das clusulas do contrato. Para sorte de Todd, toda a equipe tem estabilidade no emprego por seis meses.
	Quem  o novo dono?
Stone sorriu.
	Eu.
	Voc?  Jamie arregalou os olhos, boquiaberta.
	Eu mesmo  Stone no conseguia tirar dos lbios o sorriso orgulhoso.  Sou o novo dono, e vou ficar por aqui.
O corao de Jamie ribombava, entre a alegria e o desespero. Que bom, ele ficaria! Mas isso tambm significaria v-lo todo dia, trabalhar a seu lado, e... saber que correspondia ao seu amor. Quando finalmente conseguiu dizer alguma coisa, a voz tremia.
	Era essa a mudana na carreira que voc pretendia?
	Era. E, at o ltimo minuto, parecia no ser possvel. Por pouco outra empresa no passou na minha frente.
	Por que no me contou?
Stone deu de ombros.
	Antes queria ter certeza de conseguir.
	Mas... como? Por qu?
	Reuni um grupo de investidores, principalmente antigos clientes. Como consultor, eu tinha de garantir boa audincia para a emissora, para no parecer sabotagem para baixar o preo. Por isso insisti em manter voc no ar. Agora, quanto  segunda parte da pergunta...
Stone se aproximou. Enrolou nos dedos uma mecha dos cabelos dela.
	Achei que, se eu fosse dono de uma emissora, poderia viver num lugar s, contratar gente para trabalhar at tarde. No posso prometer no fazer mais isso, mas o trabalho no vai mais ser prioridade em minha vida.  O sol entrando pela janela fazia seus olhos escuros cintilarem.  Minha vida vai ser voc... se me quiser de volta.
Como? Stone dissera mesmo.o que ela achava ter ouvido? Stone se aproximou ainda mais. Jamie podia sentir aquele perfume que conhecia to bem.
	Quando cheguei e soube o que tinha acontecido, perdi a cabea, Jamie.  Stone segurou seus braos. Vi a fita do jornal. Doura, o que voc fez hoje foi a coisa mais corajosa que j vi.
Jamie olhava aqueles olhos. O corao batia to desordenado que ela mal podia entender o que ele dizia.
	Naquele momento decidi que, se voc pode enfrentar seus medos, tambm posso enfrentar os meus.  Stone mostrava no olhar uma vulnerabilidade que Jamie nunca vira antes.  Morro de medo de mago-la de novo, Jamie, desapont-la, no ser o que voc precisa. Mas quero tentar. Mais que tudo no mundo, quero tentar.
	Oh, Stone...
	Nunca deixei de am-la, Jamie. Quer casar comigo outra vez?
Jamie no conseguia responder. Mas os olhos respondiam. Trazendo-a mais perto, Stone a beijou. Um longo beijo. Quando finalmente parou de beij-la, prosseguiu:
	Agora que sou dono da emissora, posso fazer as regras. E a primeira delas  que, a partir de agora, voc est livre daquele contrato. Se no quiser, no precisa mais ir para o ar.
Jamie se sentia nas nuvens. Estava onde sempre quisera estar: nos braos de Stone, no seu corao, no topo de sua lista de prioridades, sentindo-se amada como nunca antes. E queria retribuir.
	Um momento, sr. Johnson. Voc no acabou de dizer que agora  dono da emissora?
	Isso mesmo, srta. Erickson.
	No investiu uma nota, apostando nos ndices de audincia?
	Exatamente  Stone confirmou, solene.
Jamie sorriu.
 Ento, se vamos tocar uma emissora de tev, precisamos faturar muita publicidade, voc no acha?
Adorvel a forma como ela se inclua no negcio. Stone sorria, fingindo ponderar o que ela dizia.
	Sim, acho que seria conveniente...
	Ento devo continuar na mesa de ancoragem  Jamie disse, decidida.  Pelo menos por enquanto. Mais tarde, quando as coisas melhorarem, voc pode abrir mais espao para o pblico infantil. Sei de uma produtora que pode fazer um bom trabalho, se adequadamente motivada.
	Acho que sei como motiv-la  Stone disse, acariciando seu rosto.  Querida, voc consegue imaginar quanto a amo?
Jamie sorriu, um sorriso travesso, aconchegando-se.
	Tenho uma ideia.
Stone riu, o corao transbordando de felicidade. Olhou nos olhos dela, feliz.
	Tambm amo voc, Stone  ela murmurou.  E quero ser sua esposa. Em todos os sentidos.
Oh, como ele ansiava ouvir aquilo!
	No vejo a hora de ser seu marido  Stone disse, voz rouca.  Vamos casar o mais rpido possvel.
	Antes precisamos achar uma casa para morar.
	Como?  Stone ergueu as sobrancelhas, surpreso.
	Vendi minha casa.
Stone no entendia. Jamie no parecia estar brincando.
	Voc o qu?
	Eu no sabia que voc pretendia ficar por aqui. E no ia deixar voc ir embora sem mim. No de novo.
Stone sabia quanto aquela casa significava para ela. Mesmo assim, ela estava disposta a abrir mo de um sonho para estar com ele. Sacudiu a cabea, perplexo. No sabia como conseguira conquistar o corao de uma mulher to maravilhosa, mas estava disposto a tudo para manter a conquista.
	Mas, Jamie, voc sempre quis uma casa como aquela...
Jamie sorriu, um sorriso meio zombeteiro, os olhos da cor do cu. Sem nuvens.
	O que eu sempre quis foi um lar, e lar  onde est o corao. O meu vai estar sempre com voc.
Stone no cabia em si de felicidade.

EPLOGO

O bolo est delicioso!  Harold co-' mentou, ao comer mais um pedao.
	Que bom que voc gostou.  A brisa insistia em adejar as abas do chapu de palha de Flossie, que o segurava na cabea com uma das mos. Na outra, equilibrava um prato do  mesmo bolo.  A receita  do programa A Dona de Casa Feliz. Como no podia faz-lo eu mesma, forneci a receita ao bufe. Ando viajando muito agora que estou trabalhando fora.
No muito longe, Jamie sorriu para Stone.
	Vov est orgulhosa de assumir sua consultoria de televiso.
	Ela tem um talento inato para saber o que o pblico quer. Todos gostam das suas sugestes... inusitadas.
	Vov diria inovadoras.
	Seja como for, esto todos contentes com os resultados. E eu por poder ficar em casa com minha esposa.
Stone abraou Jamie pela cintura, parando sob o caramancho, observando os convidados no quintal da casa da av.
	J disse que voc est bonita hoje?
Jamie, ainda vestida de noiva, sorriu para seu marido.
	Umas dez ou doze vezes.
	Certas coisas merecem reprise... voc est linda  Stone disse mais uma vez, olhar orgulhoso, clido como o sol da tarde.
	Tem uma coisa que gostei de repetir: nossos votos de casamento. Tambm gostei de casar numa igreja  Jamie disse.
	Eu tambm  Stone apertou o abrao um pouco mais, olhando-a de soslaio.  Sempre quis ver voc assim. Da outra vez, privei voc do vestido e todo o resto.
	Nunca me importei.
	Mas agora vamos ter at fotos da cerimnia. E um casamento formal  sempre bom motivo para comemorao.  Stone sorriu.  Alis, temos vrios e bons motivos. O prximo vai ser a inaugurao daquele celeiro que estamos construindo. Jamie riu.
	No  um celeiro.  uma casa de fazenda.
Stone sorriu, olhar malicioso.
	Poderia ser at um galinheiro. Contanto que a fizesse feliz... e tivesse uma cama de casal.
Jamie corou, ansiosa pela noite que se aproximava, quando lhe contaria sobre o que sentia quando ele a olhava daquele jeito.
Um riso infantil, no muito longe, chamou a ateno deles. Era Michael que chegava correndo. Stone pegou o garoto nos braos.
	Levei as alianas direitinho, no foi?  Michael disse.
	Voc foi fantstico, campeo!  Stone respondeu. 
Agora que j casaram, posso chamar vocs de papai e mame?
Por sobre a cabea do garoto, Stone olhou para Jamie, com tal ternura no olhar que os olhos dela se encheram de lgrimas.
	Claro... filho.
	No vejo a hora de ir morar com vocs...
	Assim que a gente voltar da lua-de-mel  Jamie prometeu.
A sra. Mathis apareceu e levou Michael para comer um pedao do bolo de casamento.
Sem largar de Jamie, Stone olhava o garoto pulando no gramado.
	Foi bom a sra. Mathis ter conseguido to rpido a guarda do garoto para ns.
Jamie sorriu.
	E. Ficarmos com a guarda de Michael at a formalizao da adoo foi uma tima ideia.
	Outro motivo para comemorao... quando assinarmos os documentos daqui a alguns meses  Stone disse.  Alm das festas de batizado dos filhos que vamos ter.  L estava aquele olhar malicioso de volta.  Precisamos comear a trabalhar nesse projeto imediatamente.
	Melhor esperarmos at a lua-de-mel  Jamie respondeu.
	No sei se vou conseguir.  O olhar de um e outro denunciava o desejo. Stone beijou seus lbios, um beijo terno como uma carcia, antecipando o que estava por vir.
	J disse que voc est bonita hoje?  Stone perguntou.
	Hmmm... voc est se repetindo  Jamie brincou.
	No posso evitar... estou perdidamente apaixonado por minha esposa.
Jamie enlaou seu pescoo, aconchegando-se junto dele. O ajuste era perfeito, como uma mo na luva, uma porta no batente, uma chave na fechadura. Seguro, confortvel, acolhedor. E excitante.
Era o lugar a que Jamie sempre pertencera, onde queria ficar.
O lar que ela sempre sonhara.
	Amo voc, Stone  ela sussurrou.
	Tambm amo voc.  Stone beijou seus cabelos.
	Pode repetir isso quantas vezes quiser  Jamie disse baixinho, na ponta dos ps para poder beij-lo.  Todos os dias... pelo resto de nossas vidas...

FIM
